quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

MASAKA ! !

Esse video emprestei da Karina

Masaka! Quer dizer: Não pode ser! / Não me diga! / Quem diria?

Bem... algumas coisas eu já sabia, e fiquei confusa com outras.
Sobre a comida, não fazia idéia do desperdicio. Quando cheguei pela primeira vez ao Japão, tive muita dificuldade para me acostumar a comprar pouca comida (lembra do post sobre a cebola?, contei aqui).
 Para economizar e porque chegavamos tarde e tão cansados que compravamos as refeições na fabrica.
 Eu como pouco. O Beto costumava dizer que passarinho come mais que eu.
normalmente era assim
Eu não conseguia comer tudo, o gosto era estranho, tinha sempre uma fritura, que me dava dor de cabeça.
Curry Rice
O Beto pedia - todos os dias - Chahan, uma especie de arroz de forno (arroz, ovo, cenoura, milho e ervilha). Eu adoro Kare Raisu (Curry Rice), mas vinha tanto, que eu acabava desistindo de pedir.
Chahan
Tinha uma senhora que servia, que me achava muito kawaii (bonitinha) . No dia do Curry Rice, eu falava pra ela "coloca pouco", "menos, menos". Ela me olhava e dizia "voce vai ficar doente" e colocava um monte. Eu queria chorar porque os nossos amigos japoneses falavam que era mottainai - desperdicio, deixar comida no prato, que na epoca do pós - guerra faltava comida, então era falta de educação jogar comida fora.
Mas eu gostava tanto que acabava pedindo. Na hora de levar o prato, eu tinha uma estrategia: enquanto o Beto distraia ela, eu jogava o resto no coletor e dava uma mexida pra disfarçar. Quando ela via o prato limpo, ficava tão contente, que cortava meu coração.
Ela sempre me dava bolacha, bala, pãozinho. Um dia trouxe uma sacola cheia de ponkan, colhido do quintal dela!
Sei que o povo japones é timido, mas nossos amigos são tão expansivos e calorosos. Não existe o contato fisico, o abraço, o beijo, mas o resto compensa.



O chefe japones


Eles são receosos, desconfiados e demoram a confiar em voce. Um chefe japones pode ser extremamente cruel com um novato, seja ele estrangeiro ou não. 
No nosso primeiro trabalho, haviam varios chefes, divididos em 4 turnos. Um em especial, era muito chato. Jogava coisas no chão pra voce pegar, gritava, humilhava, brigava. Mas era solicito e muito justo. Se voce trabalhava bem, ele te deixava em paz. Como eu era uma das poucas que entendiam um pouco o nihongo (idioma japones), sobrava pra mim as traduções. Quando não entendia o que ele falava, saia pisando duro, falando "My God" e deixava a gente lá, com cara de bobo. No trabalho usavamos um uniforme que só deixava os olhos de fora. Os olhos dele eram de arrepiar de medo. Nós o chamavamos de Smurf, porque era o unico que usava roupa azul, o resto era branco. Ele andava arrastando a pulseira anti-estatica pela seção. Até hoje, 11 anos depois, ainda tem gente que tem medo dele.
Com o tempo, eu e o Beto fomos conquistando sua confiança - que fique bem claro que não eramos puxa-saco. Ele se tornou um amigo maravilhoso. O Beto, com seu jeito brincalhão e expontaneo o conquistou. Eu tive que trabalhar muito, traduzir muito. Acabei me tornando sua "assistente". Quase sempre, faziamos o intervalo juntos. O resto do pessoal fazia no horario normal. Levei um susto quando o vi sem uniforme! Ele usava o cabelo a lá Elvis e a lapela levantada. Vinha trabalhar numa Harley-Davidson e era rarissimo ve-lo sem uniforme.Quando houve o 11 de Setembro - mais de 300 brasileiros foram dispensados e sei-la-quantos japoneses foram remanejados - ele nos chamou e com lagrimas nos olhos, nos disse que  não poderia fazer nada e que era pra procurarmos outro emprego o mais rapido possivel, até então, não sabiamos que estavamos na lista de corte. Na despedida, a unica pessoa que não tirou fotos com a gente foi ele. Não precisa, ele vai ficar pra sempre na nossa memoria.



O amigo japones


O Sawada san, era o mais jovem dos chefes. Ex-universitario de Administração, largou os estudos pra lutar karate (kara = vazio te = mão). Ele "adotou" o Beto e o levava para todos os lugares. Tirava ele do trabalho para irem fumar. Não era justo, eu trabalhava e o Beto brincava.
Bem... na verdade, o Beto trabalhava mais que eu, era mais rapido e sempre me ajudava, pegando as caixas pesadas.
Praticamente inauguramos a Sharp 2, no começo eramos 5 pessoas na seção (depois de 3 anos, havia mais de 40). No começo não havia trabalho, a fabrica estava em estagio de adaptação e ajustes. Durante a noite, no turno dele, falava Oyasumi (Boa noite) e mandava todo mundo dormir. Eu pensava "isso é o Japão?". Nos outros turnos, os chefes mandavam a gente estudar japones e os manuais. Estudei tanto que acabei virando a tradutora dos procedimentos de trabalho.
Foi muito gratificante ajudar os brasileiros a entenderem os manuais. Quando saia uma peça nova, lá ia eu no escritorio pegar o material pra traduzir. Sabe o mais engraçado? Meu nihongo era de "indio", funcionava mais na intuição. O menino responsavel pelo manual tinha a maior paciencia, explicava ate eu entender. Eu fazia a tradução (o desenho com as medidas limite e o nome dos defeitos) e depois ele conferia. Era muita responsabilidade, porque 1 micron calculado errado poderia descartar ou aprovar um lote inteiro.
Ele era muito bonito e tinha os olhos mais lindos do mundo! Se parecia muito com meu filho. Fazia muito sucesso entre as japonesinhas e era invejado e respeitado pelos japoneses. Usava uma pulseira de prata que era sua marca registrada. Rebelde, arregaçava as mangas e não usava booshi (bone). O turno dele era o mais light, mais gostoso de trabalhar e o que mais produzia. Entre os 4 turnos havia uma disputa para ver quem produzia mais.
Quando ele ficou doente, mandamos um cartão e meu cachorro de pelucia. Logo que voltou do hospital, o encontramos no patio. Agradeceu os presentes e quando eu disse que o cachorro era meu, que não tinha comprado, ele tirou a pulseira e entregou para o Beto. Nesse momento, os japoneses que o acompanhavam se entreolharam assustados. Correu a noticia pela fabrica inteira!
O Beto guarda até hoje essa pulseira.
Depois posto a foto dele e do Beto usando a pulseira

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