sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Pra mulher tem

Faz quase duas semanas que cheguei  e logo vou estar trabalhando. O Beto trouxe alguns panfletos, cartões e revistas para eu escolher. 
Quem nunca veio ao Japão não imagina quantos anuncios de emprego existem por aqui. Então por que tanta gente desempregada?
No inicio da febre dekassegui, não se podia escolher emprego, aceitava o que ofereciam. Era a primeira vez para todos e por falta de informação e comodidade, acabavam nas mãos das empreiteiras.
Eu fiquei felicissima com meu apartamento caindo aos pedaços, umido, gelado no inverno e um forno no verão. Lavava roupa debaixo de neve e chuva, pois a maquina de lavar ficava na varanda. Eu nunca tive maquina de lavar! Eramos iludidos com microondas, geladeira, maquina de lavar, televisão, bicicleta, panela para fazer gohan (arroz), futon (acolchoado japones ) e muitas promessas.
Quando a crise chegou em 2008, praticamente todos os estrangeiros foram dispensados. Formaram-se filas no Koukyou Shokugyo Antei-sho, a Hello Work - Agencia Publica de Emprego. Foi desespero geral, muitas familias foram morar literalmente embaixo de pontes. Brasileiros menos precavidos viveram da ajuda do governo até conseguirem trabalho. Aqui em casa, o Beto ficou recebendo seguro-desemprego por quase um ano. Foram tempos dificeis, mas graças ao bom desempenho, responsabilidade, pontualidade e comprometimento (essencial para o chefe japones), ele voltou para a mesma fabrica. Eu e Amanda não fomos dispensadas porque somos mulheres.
Nossa, o Japão protege as mulheres, né?
Nada disso. Mulher é valorizada porque faz "serviço de homem" e ganha menos. Simples assim. E nada justo.
Por conta disso, muitos maridos ficaram em casa, lavando, passando, cozinhando, limpando e cuidando dos filhos.
Eu fiquei muito orgulhosa do meu marido! Ele ia levar e buscar no trabalho, fazia comida e deixava a casa limpinha e a roupa lavada. Nossos amigos japoneses comentavam "dana san wa yasashii na!" - seu marido é bonzinho, né?
Quando chegava em casa, sentavamos todos à mesa para jantar e comentar sobre o dia na fabrica. Ele me abraçava e falava que tinha dó de mim e da Amanda. Que ELE é que deveria estar trabalhando.
O bom disso tudo, foi ele ter feito aulas de nihongo (idioma japones), que eram obrigatorias e ter ganho MUITOS livros que eu acabei aproveitando.
A palavra que marcou esse momento para muitos homens foi ikuman, formada pelas abreviações de ikuji (cuidar de crianças) e man, de homem, em ingles. Li sobre essa palavra na revista Alternativa, edição de dezembro de 2010, que dizia que essa palavra marcara o ano, mas eu discordo. Essa palavra passou a existir na crise de 2008.
Muitos brasileiros continuaram desempregados porque estavam acostumados com salarios altos e empregos que não eram 3Ks - kitanai (sujo), kiken (perigoso) e kitsui (pesado), e o que a Hello Work normalmente oferecia era esse tipo de trabalho, com salarios muito abaixo da media. 
Esses brasileiros, experientes, já podiam alugar apartamentos e comprar sem ajuda das empreiteiras. Aprenderam o idioma (alguns, mesmo depois de decadas, não aprenderam nada) e não se deixavam enganar facilmente. Muitos se tornaram arrogantes.




Dekassegui




Qualquer pessoa que deixa sua terra natal para trabalhar temporariamente em outra região ou país é designado, na lingua japonesa  como dekassegui - 出る (deru, sair) e 稼ぐ (kasegu, para trabalhar, ganhar dinheiro trabalhando).
Durante muito tempo, o Japão foi o paraiso dos brasileiros que queriam ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Eu comprei, reformei e mobiliei minha casa em dois anos. Estava casada a 10 anos e pensava seriamente em pedir financiamento na Caixa Economica. Torcia desesperadamente pelo sorteio das "casinhas" do governo. Quando estavamos para assinar o contrato, recebemos o convite para ir ao Japão.
Depois de toda a documentação pronta, veio a noticia. Tinha trabalho para mim, mas o Beto teria de esperar mais alguns meses. Isso aconteceu em 2000. Seria um pressagio para o que iria acontecer em 2008?
Decidimos ir juntos e esperamos ansiosamente pela viagem. Seriamos finalmente dekasseguis.
Essa aventura, contarei em um outro dia.

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