quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Uma cebola e duas batatas

Minha primeira compra após meses fora de casa
Um homem parou em frente a uma casa e vendo uma senhora cuidando do jardim, pediu um prato de comida. A senhora entrou, em seguida trouxe uma cebola e duas batatas. Ao entregar ao homem, este perguntou: - O que vou fazer com isso?
- Eu faço uma sopa - respondeu ela, sarcasticamente.
O homem se afastou desconsolado.


Essa historia me foi contada a muito tempo, mas nunca a esqueci porque conheço a mulher. Todos que ficaram sabendo, ficaram indignados com a atitude dela.
Fico tentando adivinhar o que passou pela sua cabeça. Foi pura maldade? Achou que era desaforo um homem saudavel (?) pedir comida ao invés de trabalhar? Ou simplesmente achou que ele faria uma sopa?
Conhecendo um pouco ela, fico com a segunda opção.

Vivendo no Japão, aprendi a valorizar cada centavo e a não desperdiçar comida. É normal encontrar legumes e frutas embaladas uma a uma. Por que comprar 1 kg de cebola, se vai usar somente uma? No Japão, fruteira só com frutas de plastico. Não conheço ninguem que tenha uma fruteira em cima da mesa, cheia de frutas frescas, enfeitando e colorindo a cozinha.
Maçã, banana, ponkan e o morango ficam na geladeira.
Levei um susto - quando cheguei pela primeira vez ao Japão - ao ver bandejas com UMA maçã, ou TRES bananas. Bandejas com UM, DOIS ou TRES tomates. Cebolas embaladas uma a uma.
Deve ser porque é caro, pensei.
Fiz como no Brasil, enchi o carrinho. Pacotes de bolacha, pão, alface, espinafre, litros e litros de coca-cola, e muitas cebolas, tomates e bananas - adoro banana.
Os japoneses olhavam estupefatos! Passei dois carrinhos cheios.
Em menos de uma semana, joguei fora tomates apodrecidos, bananas passadas, pão embolorado...
Será que os produtos daqui não prestam?? Que nada. Durante o verão, se não consumir rapidamente os alimentos, estragam mesmo. Nem adianta deixar na geladeira.
Depois de muitos tomates perdidos, aprendi a comprar para a semana. Se vou usar UM tomate, compro UM tomate.
Mas o que isso tem a ver com a cebola e as duas batatas lá de cima?
Não quero justificar o que a mulher fez, achei maldade... Ela poderia ter dado um pão, por exemplo.
O que quero dizer é que estamos acostumados com fartura. De frutas e sentimentos.
Não importa a qualidade nem se vou consumir tudo. Estragou, joga fora.
Generosidade deve ser doada com qualidade e não com quantidade.
Realmente, eu faria coisas deliciosas usando como ingredientes, somente cebola e batata.
O homem não queria nada sofisticado, queria saciar a fome do estomago e quem sabe, da alma tambem.
Um pão amanhecido, um restinho de comida que sobrara do jantar e uma palavra amiga fariam a jornada dele mais branda.
Uma noite apareceu um homem em casa pedindo uma colher. Isso mesmo, uma colher.
Ele tinha perdido o ultimo onibus pra voltar pra casa e nao tinha dinheiro pra comprar comida. Ganhou um prato de comida de alguem da vizinhança, mas não tinha como comer. Nós damos a ele, um joguinho daqueles que vem junto com marmitex - garfo, faca e guardanapo - pão e mexerica. Ele se sentou na calçada e comeu ali mesmo.
Que vontade de convida-lo a entrar e se sentar conosco. Mas eu não o conhecia, não sabia de onde vinha ou para onde ia. Temi pela minha familia. A responsabilidade pelo bem estar da minha familia falou mais alto que minha generosidade.
Infelizmente...

Um comentário:

  1. Eu faço batata assada :D rs

    No dia que o homem pediu a colher eu imaginei a pior das hipóteses pra o que ele ia fazer com ela; perguntei pro Keity várias vezes se ele tinha visto o prato de comida. Então optamos por dar o garfo plástico. Se fosse pra realmente comer, ele comeria. Acho que o falta na sociedade é generosidade no ponto certo. Nem confiança demais, nem de menos.

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