domingo, 20 de março de 2011

Gato Preto e Outras Bobagens

- Mãe, sonhei que meu dente caiu...

Alguns dias atrás, comentei que quem sonha com dente caído, significava morte na familia.
Como tranquilizar um filho, depois de dizer uma coisa dessas? Como tranquilizar uma pessoa que voce ama, depois do terremoto que devastou uma parte do Japão, que está prestes a ter um desastre nuclear, que está enfrentando falta de alimentos e agua e os alimentos que restam, estão contaminados? Fabricas fechadas, contam chegando para serem pagas...

- Ah, Lu... Voce sonhou porque foi no dentista e a gente ficou comentando sobre dentes e gengiva...


Tentei criar meus filhos sem essas crendices, mas de vez em quando escapa uma e depois, tem que aguentar as consequencias...
Quando era criança, aprendi a ter medo de trovão, pois o Gogorosan pega umbigo de criança que toma banho em dias de tempestade. Aprendi que Deus castiga.
Tive uma vizinha que colocava repolhos na porta da cozinha para impedir que a filha de 2 anos saisse para o quintal, falando que os bebês nasciam deles.
Por que as pessoas assustam crianças na esperança de protege-las?
Escrevo estas linhas com o coração apertado... Trago dentro de mim muitos medos.
Medo do escuro, de fantasma, de morrer, de ver alguem querido morrer.
Não são aqueles medos normais que não atrapalham a vida. Durante muito tempo, tive medo de ir ao banheiro sozinha, tomar banho sozinha, ir buscar um copo de agua à noite.
Desde que me casei, Beto me levava ao banheiro antes de deitar, ia buscar agua, dormia depois de mim, velando meu sono. Nunca, nunca, ele perdeu a paciencia ou achou engraçado.
Pior que tudo isso, é gostar de filmes de terror e teimar em querer assistir. Hoje, o Beto não assiste mais e briga comigo quando comento de algum.

Tubarão

Depois de ver um filme sobre tubarões inteligentes que caçavam pessoas dentro de um submarino, fiquei com medo de ir ao banheiro (como sempre). Beto me levou comentando "mas tubarão não passa pelo vaso, Bah!"

Mato Assassino

Eu e o Lucas assistimos um filme super tosco, sobre as plantas verem os seres humanos como ameaça e incitarem essas pessoas a cometerem suicidio. Resumindo: fiquei com medo das arvores do vizinho.

Escuro

Da fabrica até a estação de trem, levo 20 minutos caminhando (correndo no pensamento). Passo por ruas escuras e pela rodovia. Durante esses 20 minutos - que duram a eternidade - ando com as mãos apertadas no peito, segurando o celular. Todos os dias, penso que vai ser diferente, que vou aproveitar a caminhada. Mas todos os dias, o telhado de uma fabrica abandonada teima em chorar no momento em que passo por ela. Por que ela não chora de dia? Por que tem que ser à noite? Por que não atravesso a rodovia?

Não gosto de falar tchau... 

Acordei com dor de cabeça e fiquei irritada com o Beto. Resolvi ficar na cama, bem quietinha.
Beto se arrumou para o trabalho e na hora em que veio se despedir, me abraçou bem forte (como sempre) e beijou meu pescoço varias vezes (adoro quando ele faz isso) e sussurrou no meu ouvido "eu te amo".
Fechou as cortinas e enquanto fechava a porta do quarto, não tive forças pra pedir que deixasse aberta, que eu queria ver o sol pela janela do outro quarto, que fica ao lado.
Ele se virou e falou "tchau". Como não respondi, ele insistiu "fala tchau pra mim!". Falei bem baixinho...
Não gosto de despedidas, de falar tchau. Parece que nunca mais vou ver a pessoa.
Sempre levo o Beto até a porta e fico abraçando ele, querendo que ele fique. Mas ele nunca fica. Me abraça, me beija e promete ligar assim que chegar no trabalho.
Hoje foi diferente, por causa do sonho do Lucas. Tive que colocar todos os meus medos de lado pra dizer: "não é nada, Lu".
Pelos nossos filhos, eu enfrento qualquer coisa. Tubarão que sobe pelo ralo, arvore assassina, fantasma. No escuro ou em plena luz do dia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário