sábado, 14 de maio de 2011

Minha vida dentro de um saco plastico

Terremoto. Tsunami.Desastre Nuclear. Radiação.Um saco plastico de 70X70. 2 horas. Angustia. Tristeza.

Esses elementos dariam um otimo filme, digno de ganhar um Oscar por efeitos especiais, melhor filme, trilha sonora, melhor ator e melhor atriz, etc.
Eu acho que seria um daqueles filmes em que a gente respira aliviada, quando aparece na tela  "The End" e começam a subir aquelas letrinhas que ninguem lê e a tocar aquela musica maravilhosa, que a gente procura depois no Youtube. Aliviada por ser ficção, por ser tudo de mentirinha. Ufa! ainda bem que to no Brasil, morando na minha casinha, com minha familia e meus cachorros, eu diria.
Seria um otimo filme se não fosse real. Tudo aconteceu de verdade: o terremoto, tsunami, usina nuclear semi destruida e eu estou no Japão.

No dia 10 de maio, alguns moradores de Fukushima puderam voltar às suas casas para recolher objetos pessoais.
Vestindo roupas especiais com medidores de radiação, tiveram duas horas para colocar objetos pessoais dentro de um saco plastico, medindo 70X70.
Os itens mais procurados foram fotos e albuns, documentos, inkan, cadernetas bancarias e roupas.
Fico imaginando essas pessoas colocando suas vidas dentro de um saco plastico, andando pelos comodos como estranhos, se lembrando dos momentos felizes vividos ali. Louças deixadas na pia, roupas no varal, no tapete da sala, brinquedos misturados com objetos que cairam da estante ...
Ao ver essa cena, todos estariam chorando - se estivessem numa sala de cinema.
Na vida real, não há tempo para lagrimas. Duas horas para recolher fotos e roupas não deixa muito tempo para lamentações.
Mas por que essas pessoas se preocuparam em recuperar fotos? Nos abrigos, voluntarios e moradores procuram sob os destroços fotos e albuns e dispoem sobre bancadas o que acharam.
Uma casa pode ser reconstruida, um emprego retomado, roupas podem ser compradas, mas momentos não podem ser revividos, aniversarios, nascimentos, casamentos, passeios são momentos unicos.
Uma viagem, um beijo roubado, um sorriso, uma lagrima. O primeiro baile, a formatura. Uma pessoa querida que morreu.
Fotos guardam sentimentos, registros que não se perdem como nossa memoria.
Vamos torcer para que todas essas pessoas possam tirar novas fotos e compor novos albuns. Fotos de reencontros, da nova casa e de muitos, muitos sorrisos.









3 comentários:

  1. maravilhoso seu texto.
    realmente, em duas horas, o que pode se resgatar de uma vida? roupas que são necessárias? lembranças?

    fotos, quantas emoções registradas, pessoas que amamos estão nelas. o resto, dá se um jeito, recupera-se (creio eu).

    muito triste... muito mesmo

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  2. Claudia!
    Como dói a gente ver quanta coisa ainda falta para ser feita e quão pouco tempo temos...
    Vamos torcendo e pendo amor para todos vocês, que são lutadores, que nos ensinam o que é ser solidário quando o necessário se faz presente.
    Super beijo!!

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  3. OLá Claudia!
    Você escreve maravilhosamente bem,me emocionei com ele,como pode em tão pouco tempo e com apenas um saco de 70x70 colocar alí toda uma vida,é muito triste e tudo que podemos fazer é agradecer por estar vivo.
    Meus pensamentos positivos são para meus irmãos japoneses!!!Que com sua sabedoria milenar vai encontrar uma saida!!!
    bjossss

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