sábado, 4 de junho de 2011

Trabalho no Japão 1/3 # Shigoto Yooooshi

O terremoto do dia 11 de março afetou todo o país e consequentemente, a estabilidade financeira da minha casa. Recem chegada do Brasil, com a esperança de finalmente poder juntar dinheiro suficiente pra voltar  ao Brasil definitivamente, comecei a trabalhar numa fabrica de auto peças. Trabalhei 10 dias e depois, não só o sonho acabou, como o dinheiro tambem. Entrei em desespero, porque vi que a nossa tão esperada viagem de volta ao nosso querido Brasil ia ficando para trás. 
Medo do terremoto, medo de ficar sem comida, sem água, sem energia, sem esperanças...
Montei kit de emergencia e deixei na porta. Dormia com DUAS lanternas, pro caso de uma falhar. Dormia segurando o celular e os óculos (sem eles, sou completamente inutil). Deixava do lado do futon, uma calça, uma blusa e um par de meias. O Beto e o Lucas estavam mais tranquilos e ficavam bravos comigo, achavam que eu estava exagerando.
"Pra não sentir tanto medo, me deixa prevenir. Me sinto segura arrumando diariamente as nossas coisas, ou voces preferem me ver chorando e pedindo pra voltar pro Brasil?", depois que falei isso, eles pararam de se incomodar.
Ficar em casa é muito bom; poder acordar tarde, ver tv o dia todo, deixar a casa sempre arrumada e perfumada, roupa lavada, almoçar com o Lucas, jantar com a familia. Seria perfeito se não fosse um pequeno detalhe: falta de dinheiro.
Fiz alguns serviços temporários que me enriqueceram muito, no sentido de aprendizado. Conheci um bentoya e uma fabrica de doces.
Bentoya..... nem o Osama Bin Laden merece um castigo desse (brincadeira! mas pra quem não esta acostumado com o ritmo de um bentoya, é muito sacrificante e estressante ).
Fabrica de doces... amei trabalhar lá, aprendi a fazer rosquinhas, torradas e confeitar bolo. 
Mas eu precisava de um emprego fixo, que pudesse pagar nossas contas pelo menos. Antigamente, quando ia fazer compras, nem olhava a carteira, pois sabia que tinha o suficiente. Hoje, contamos as moedinhas e nunca mais esquecemos de levar nossa Eco Bag pro supermercado e assim evitar de pagar pelas sacolas do supermercado.
Bom... fui pedir emprego em uma fabrica onde já tinha trabalhado em 2008/2009. Fui na maior cara-de-pau, sem ligar, levando um contrato velho. 

 Minhas dicas para quem vai pedir emprego no Japão.

Correto: Se não puder ir pessoalmente solicitar uma entrevista, ligue para agendar e anotar os documentos que irá levar no dia.
Errado: Apareci sem ligar e no desespero de conseguir uma vaga, aceitei agendar para o dia seguinte a entrevista. Tive que sair correndo pra providenciar os documentos, tirar foto e ir até o Departamento de Imigração pedir um papel que eu nem sabia que existia. Cheguei em cima da hora, mas com tudo providenciado. Meu marido saiu do Yakin (trabalho noturno), me levou até Nagoya, ao Apita tirar foto, comprar curriculo, comer um american dog e me deixou na porta da fabrica. Ficou me esperando pra me levar de volta pra casa e finalmente dar uma cochilada pra ir trabalhar a noite. Se voce não tiver um super marido, agende para um dia que voce tenha certeza de ter tempo de providenciar tudo. 

Correto: Vá com uma roupa discreta, não precisa ser terninho-engomadinho, com uma bolsa pequena que caiba os documentos, celular, carteira, etc.
Errado: Eu tenho uma bolsa linda, verde. Grande. Coloquei minha blusa, sombrinha, celular, carteira, etc, etc.
Quando a moça perguntou o numero do meu celular (não sei de cor) não consegui achar, tive que tirar blusa, sombrinha, e tudo o mais que estava em cima do celular. O danado estava escondido no fundo da bolsa!

Correto: Sente-se ereta, com as mãos sobre o colo e responda calmamente as perguntas. Antes de ir para a entrevista, procure saber sobre a empresa, se for por indicação, converse com seus amigos, pergunte sobre tudo! Horario de trabalho, quem é o chefe, o chefe do chefe, salário, dia de pagamento, rotina de trabalho, particularidades. E o mais importante de tudo: estude o idioma e seja sincero ao dizer nihongo... amari hanasemasen.
Errado: Eu entendo (se falar devagar), falo (se tiver paciencia para esperar eu formular uma frase), leio katakana, hiragana, alguns kanjis (ainda não consigo ler um Yomiuri Shimbun, mas chego lá). Para a entrevista, me deram um papel com algumas perguntas. Nihongo chotto...  A moça, me desdenhando, falou yomemasen? kakemasen? mensetsu dekinai.
Será que ela não me conhece? Não sabe que trabalhei quase dois anos lá? Cadê o Umeda san pra me salvar?
Ah, mas eu vou responder essas perguntas, ela não vai me vencer assim.
Respondi TUDO! do meu jeito, né? O que não entendi, falei que tinha lido, mas não tinha entendido o signifcado. Japoneses tem um codigo secreto pra perguntar certas coisas. Eles evitam fazer perguntas diretas e dão respostas evasivas. Eu li tudo, mas enrosquei nesse codigo.

Correto: Responda sinceramente todas as perguntas, mas procure não ser tão objetivo.
Errado: Nas perguntas Que tipo de serviço voce mais gosta? e Que tipo de serviço não gosta?, respondi serviço rapido e detalhado para gostar e serviço lento e pesado para não gosto. Eu queria muito voltar para a minha antiga seção e descrevi o tipo de serviço que faz lá.
Não voltei para a seção, mas para a subseção dela. É um lugar tranquilo, mas minucioso ao extremo. O resultado da minha "leitura" de kanji? Vou ter de ler e escrever em kanji o dia todo e a unica pessoa que poderia me ajudar, pediu demissão e ontem foi o ultimo dia dela, agora vou ter que aprender na marra, pois vou trabalhar sozinha e terei que carregar as caixas pesadas sozinha.

Muitos blogs e livros dão dicas sobre comportamento, roupas, ensinam o que falar e o que não falar. Ensinam como se tornar uma pessoa "contratável".  
Minha dica é: seja voce mesmo, seja natural, porque se te contratarem e voce se mostrar diferente do que na epoca da entrevista, voce não durará uma semana. Seja educado, desligue o celular, mostre interesse e pergunte se não entender alguma coisa.

Meu primeiro dia, foi muito bom! No final da explicação sobre o funcionamento da empresa,  um amigo (japones) que é chefe do departamento de qualidade, se levantou da mesa e veio me cumprimentar falando kita, kitayo!  O encarregado da seleção de candidatos pediu para que eu acompanhasse os novatos e mostrasse onde guarda os sapatos - perai! então ele sabia quem eu era e me deixou sofrendo com aqueles kanjis.
Nos corredores, no refeitorio, no vestiario, onde encontrava gente, ouvia hisashi-buri. Foi bom reencontrar o pessoal, mas o que me marcou mesmo, foi ouvir dos chefes alem de ohisashi-buri, onegai shimasu. Quando fui pedir emprego, todos ficaram sabendo, do kakaricho ao shain. No dia da entrevista, meu antigo chefe falou para as meninas que eu estava no escritorio.
No segundo e terceiro dia, continuei encontrando gente e era muito gratificante ver sorrisos e felicitações pelo nascimento da Laís. Todos já estavam sabendo que Amanda tinha se casado e que eu ganhara uma neta. Todos queriam saber se ela tambem ia voltar a trabalhar lá.

Minha segunda dica é: trabalhe com vontade e com responsabilidade. Seja flexivel no horario, aprenda, pergunte, ajude, sorria, não faça fofoca nem panelinha. Mantenha limpo e organizado seu local de trabalho. Se estiver aguardando serviço, pergunte o que pode fazer enquanto isso ou pegue uma vassoura e uma pá e limpe, limpe, limpe.

Hoje - sabado - passei o dia estudando kanji. Meu sensei me deu dicionarios, livros e mais livros, que estavam encostados desde que cheguei do Brasil em fevereiro. Ele vai ficar orgulhoso de mim ao saber que ainda consigo ler e traduzir pequenos textos.

Resumindo: Se voce não tiver uma fabrica para voltar, onde todos o conhecem e gostam do seu serviço, procure construir sua historia fazendo o melhor que puder, se esforçando para ter sempre um lugar onde possa voltar.

Apesar da minha entrevista ter sido um desastre, consegui um emprego e um novo desafio. 



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