domingo, 18 de setembro de 2011

A tigela de madeira


Uma senhora de idade avançada foi morar com o filho, a nora e a netinha de 4 anos. As mãos da velhinha estavam tremulas, sua visão embaçada e os passos, vacilantes.

A família comia reunida à mesa. Mas as mãos tremulas e a visão falha da avó a atrapalhavam na hora de comer. A soja rolava de sua colher e caía no chão. Quando pegava a tigela, o missoshiru  era derramado na toalha.

O filho e a nora irritaram-se com a bagunça - Precisamos tomar uma providência com respeito à mamãe - disse o filho.

- Já tivemos suficiente sopa derramada, barulho de gente comendo com a boca aberta e comida pelo chão.

Então, eles decidiram colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha.
Ali, a avó comia sozinha, enquanto o resto da família fazia as refeições na sala, com satisfação.

Desde que a velhinha quebrara uma ou duas tigelas de louça, sua comida era servida numa tigela de madeira. Quando a família olhava para a avó sentada ali sozinha, às vezes notavam que ela tinha lágrimas nos olhos.

Mesmo assim, as únicas palavras que lhe diziam eram admoestações ásperas quando ela deixava um palito ou comida cair ao chão. A menina de 4 anos assistia a tudo em silêncio.

Uma noite, antes do jantar, a mãe percebeu que a filha pequena estava no chão, manuseando pedaços de madeira. Ela perguntou delicadamente à criança: “O que está fazendo?”

A menina respondeu docemente:

- Oh, estou fazendo uma tigela para você comer, quando eu crescer.

E a menina sorriu e voltou ao trabalho.





Não gosto muito de estorias que tenham "moral da historia" escritos de forma tão direta, prefiro as fabulas de Esopo (Pedro e o lobo é a minha preferida. Amanda e Lucas não mentem pra mim, não sei se por causa do lobo ou porque entenderam a mensagem).

Obachan e eu

Mas essa estoria - da tigela de madeira - me fez refletir sobre muitas coisas. Me fez relembrar passagens da minha infancia.
Todas as tardes, minha bachan fritava bolinhos de chuva ou fazia dango de feijão. Sentavam-se à mesa, eu e minhas irmãs, bachan e dichan. Depois que dichan morreu, os bolinhos e dangos continuaram a serem feitos, mas não tinham o mesmo sabor... Depois de um tempo, meu tio assumiu a tarefa do lanche da tarde e além dos bolinhos, passamos a tomar vitamina de frutas - banana, maçã, beterraba, neston, mamão.
As tardes com dichan e bachan eram silenciosas. Não era permitido conversas e brincadeiras à mesa.
No verão, dichan comprava sorvete da Sorveteria Kimura e sempre vinha os mesmos sabores: pistache, coco, morango e nata.
No Natal, todos os netos se reuniam em fila para ganhar dinheiro. Estendiamos e mão em forma de concha e falavamos choodai.
Dia de pescaria era uma alegria! Preparar oniguiri, pão com mortadela ou presunto, chá, agua e refrigerante. Cavocar o quintal em busca de minhocas - eca! - e separar as varas de pesca. Pegar a barraca e as cadeirinhas. Bonés e chinelos. Papel higienico e sacolinhas de supermercado pra trazer o lixo.
Minha mãe
Não me lembro como cabia tudo dentro do carro - uma TL azul. Não me lembro se uma parte do povo ia de onibus ou se fazia duas viagens. Preciso perguntar para meu tio.
Chegavamos quase de madrugada na represa e só iamos embora à tardinha.
Depois que proibiram a entrada na represa, passamos a ir em pesqueiros. Que sem graça... Nos pesqueiros não podia levar comida nem minhocas. As varas eram emprestadas e os peixes pareciam querer pular no nosso colo. Tinha restaurante, banheiro e muuuuuita gente!
Ver o sol nascer na beira da agua ou ver ele indo embora no final da tarde, era impossivel, pois os pesqueiros abriam tarde e fechavam cedo. Os peixes pescados eram limpos, fritos e trazidos numa bandeja.
Domingo era dia de ir na casa da bachan. Passavamos a semana toda lá, enquanto meus pais trabalhavam e mesmo assim, domingo era dia de ir pra lá. Depois do almoço, dichan se sentava na poltrona e ficava fumando. Minha mãe e bachan, ficavam no quintal, cuidando das plantas. Meu pai, dormia no sofa.
Quase sempre dormiamos na casa da bachan. Ela se sentava na beirada da cama e contava historias japonesas. 
Com a modernização e a tecnologia, muita coisa mudou na casa da bachan.
Ela ganhou um espremedor de laranjas e um fogão com acendimento automatico. As pescarias foram substituidas pelo PlayStation - ela jogava! - e os bolinhos e dangos passaram a ser pão frances recem-comprado com requeijão ou salaminho. Nada de pão de ontem, na chapa com manteiga (que pena, era uma delicia...).
Não tenho mais bachan e dichan. Nem mãe.
Hoje EU sou a bachan e Beto, dichan. E moramos no Japão.
Tenho certeza de que nunca comeremos numa tigela de madeira, mas minha bachan e minha mãe já comeram em tigelinhas de madeira... 
Meu pai com Lala
Meu pai é um doce de pessoa e se recusa a ir morar em minha casa, diz que perderá a liberdade. Eu sei que quando ele partir, muitas pessoas nos acusará de te-lo alimentado em tigelas de madeira, mas aprendi uma lição valiosa com a perda da minha bachan: Cuidar respeitando suas vontades. Sempre estarei do lado dele, amparando, mas nunca impondo ou julgando. Sinto que ele ficou magoado quando retornei ao Japão, se sentindo abandonado, mas Lucas e Beto estão aqui e meu lugar é ao lado deles. Eu preciso deles, mais do que eles a mim.




Eu sou bachan moderna: tenho facebook e blog, uso baby look e não saio de casa sem lápis nem rimel nos olhos. Curto bandas de rock e meus oculos não ficam na ponta do nariz. 
Mas, trocaria tudo isso - sem pensar - por umas tardes, fazendo bolinho de chuva e contando historias pra Lala.


Dia 19 de setembro é o Dia do Respeito aos Idosos, aqui no Japão; 1º de outubro, Dia do Idoso, no Brasil.


Um dia é muito pouco para homenagear nossos dichans e bachans. O dia acabará e as rugas ainda permanecerão em seus rostos. Suas mãos ainda continuarão tremulas e suas pernas ainda andarão devagar. O dia acabará e outros feriados virão, mas o sorriso e o amor de uma bachan sempre permanecerão intactos. Fortes, como uma tigela de madeira.









Um comentário:

  1. Fiquei emocionada com sua história e a leitura me fez voltar no tempo como se um filme passasse pelas minhas memórias. Histórias parecidas de famílias nikkeis... Você soube contá-las com tanta naturalidade e familiridade que o texto ficou um encanto!

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