domingo, 2 de outubro de 2011

Cativa-me!

19.Setembro.2011


Hoje me despedi de colegas e do meu chefe. Estou iniciando um novo ciclo.
O taifu de terça-feira não causou somente estragos e transtornos, causou uma revolução em minha vida.
Quando chegamos ao Japão, pela primeira vez, parecia que estavamos aterrisando em outro planeta. Um planeta fantasma e perfeito, cheio de Barbies e Kens - de olhos puxados.
Beto ligou para a mãe e quando falou com a avó, esta perguntou: "tem muito japones aí?".
Descobrimos muitas coisas e desmistificamos outras. Ao ver um outdoor, escrito em letras romanas, perguntei "nossa, japones consegue ler?". Pensava que só havia kanji por aqui.
Andando pela rua, vi um cachorro e mandei:  " será que cachorro late em japones?".
Fomos morar em Mie-ken, numa cidade do interior, onde estrangeiros eram raros. Não compramos bicicletas, então faziamos compras e passeios a pé ou de onibus. Atraíamos todos os olhares.
No inicio, um onibus era suficiente para levar todos os brasileiros para a fabrica. Alguns meses depois, dez onibus iam lotados de pessoas cheias de sonhos e ansiosos por uma vida mais confortavel. Eu e Beto eramos populares. Eu era solícita e ajudava os "novatos", ensinando o serviço e fazendo traduções - meio na base do "kore, kore" - Beto era brincalhão e simpatico e deixava todos à vontade. Passeios em grupo e churrascos eram constantes.
Um casal de amigos resolveu trocar de emprego e reuniu todos em uma roda e chorando, se despediram de nós agradecendo a acolhida. Nosso tantousha nos consolou - ou assustou - dizendo "voces vão ver muito isso ainda". Ele tinha razão. As pessoas, simplesmente começaram a desaparecer, sem roda de despedida. A cada dia, a rotatividade se intensificava.
Meu primo nos alertou dizendo " depois que voce trocar pela primeira vez de emprego, vai trocar sempre". É igual a uma criança que vê o portão aberto, sente medo de atravessar, mas quando coloca um pezinho pra fora - sozinha -, a cada dia irá mais longe.
Eu sempre mantenho um pé para dentro, não tenho mais medo de caminhar sozinha, mas criei tantos laços por onde passei que sempre acabam me levando de volta.
Sabe aquela fitinha que amarramos no dedo para não esquecer? Tenho mais dedos com fitinha do que fios de cabelo!
Já disse uma vez - aqui - que a vida é feita de retalhos. Não costuramos somente retalhos perfeitos, não estamos livres de encontrar um com um defeitinho, feito de pessoas que nos magoam, que nos ferem.
Mesmo essas pessoas estão entre minhas fitinhas e retalhos. Elas fizeram parte da minha vida, não posso negar a existencia delas. As portas do meu coração estão fechadas para elas, mas as portas da minha casa estarão sempre abertas. Posso não recebe-las com flores, mas pão e agua não faltará. Amizades no Japão são muitas vezes efemeras, se dissipam como nevoas. Chegam e acabam como um taifu. Amizades que duram até que alguém decida atravessar o portão.
Com o passar do tempo, comecei a selecionar melhor minhas fitinhas e retalhos. Não tinha mais estrutura emocional para administrar esses "taifus" que viviam se descosturando da minha colcha. Cada retalho é unico e insubstituivel, cada um tem suas particularidades e cores. E a cada perda, a dor era imensa.
Adoro conversar! Acho que já perceberam, pois meus textos são loooongos, não é mesmo?
É só me dar um tema e a conversa pode virar a madrugada. Mas não espere que eu faça perguntas pessoais, de imediato. Nunca começo uma conversa com "voce é casada?", "tem filhos?", "sua mulher é baixa, loira ou gorda?", "gosta de peixe ou de brocolis?". Estou conversando, não interrogando. Prefiro iniciar à moda japonesa: "tá quente, né?". Normalmente faço um comentario engraçado, pra descontrair - mas não sou palhaça. Pode não parecer, mas sou extremamete timida e reservada, não gosto de perguntas sobre minha vida pessoal, afinal acabei de conhecer a pessoa! Não entendo como algumas pessoas, nos primeiros dez minutos, contam suas preferencias sexuais.
Daquela epoca, de dez anos atrás, restaram poucas pessoas, a quem convidaria para serem padrinhos de casamento, por exemplo.
Longe dos olhos, longe do coração. Esta frase é cruel, mas verdadeira.
Sei que é um pouco de descuido, poderia ligar de vez em quando, mas penso assim: a distancia entre nós é a mesma, se essa pessoa nunca me liga, por que eu deveria ligar? Pode ser um jeito errado de pensar , mas às vezes sou orgulhosa - ou preguiçosa.
Beto é completamente diferente de mim. Tem os mesmos amigos, passados 25 anos. Não importa quanto tempo fiquem sem se falar, quando se encontram, parece que só se passou um dia. Ele é companheiro, ajuda no que for preciso: empresta dinheiro, o ombro pra chorar, carrega geladeira nas costas, guarda segredos (até de mim!!) quando pedem, não faz fofoca  e odeia "panela". Tem uma espontaneidade quase pueril. O telefone dele toca o dia todo.
Falando assim, parece que eu sou a megera, a solitaria, a esnobe.
Manter uma amizade é trabalhoso, requer cuidados especiais. Preservar um amigo é mil vezes mais complicado que manter um casamento. Amor é passional, intenso, carnal! Amor é  vivido a dois, suporta longas distancias e longos periodos de abstinencia.
Um dia ele me disse que ficava triste por eu ser assim, reservada, desconfiada...
Nem sempre foi assim! Mas sofri tanto com essas amizades relampagos que acho que me fechei num casulo.
 O amor pode surgir de uma troca de olhar, não é preciso palavras para acontecer. Quando Beto e eu trocamos o primeiro olhar, tudo ao nosso redor ficou cinza, sem som, congelado. Naquele momento sabiamos que seriamos um do outro. Estavamos num clube, lotado de gente, o som era ensurdecedor. Ao descer as escadas que davam acesso ao salão, eu o vi parado, perto da porta. E aí a magica aconteceu.
Desde então vivemos como no poema de Vinicius de Moraes:


"Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."





Amizade tem um significado muito especial pra mim. É preciso vencer uma maratona pra conquistar meu coração. Se voce bater na porta e não desistir na primeira tentativa e tiver paciencia para esperar a porta se abrir, garanto - sem falsa modestia - que voce terá uma amiga 100% dedicada.
Trocaria uma noite de amor por uma noitada com amigos. Trocaria caricias por risadas. Deixaria um beijo para secar a lagrima de um amigo.
Posso namorar (não consigo falar com naturalidade "fazer amor") todas as noites, 24 horas por dia, os 7 dias da semana. Apesar dos turnos trocados, nos falamos a todo instante e aproveitamos cada minuto que passamos juntos.
Mas sair com os amigos é raro, pois cada um tem sua própria familia, morando em casas separadas, às vezes em países diferentes.
Sair com amigos é tirar um tempo para risadas e piadas. Beber até cair. Falar bobagem. Passar horas no MSN ou Facebook.
Todas as semanas, Jorge e Ana, faziam Noite da Pizza, Noite do Pão Caseiro, Noite Qualquer Coisa. Era a noite mais esperada da semana, o apartamento deles se enchia de conversas e risadas e alegria. Qualquer coisa era motivo para reunir o pessoal. Churrasco para comemorar aniversario de um ou despedida de outro. Natal, Ano Novo, Golden Week, Obon.
Teve uma vez, no Ano Novo, que "viramos o ano" em 4 apartamentos diferentes.
Aí, aconteceu o que eu mais temia: mudamos de emprego e fomos para Osaka; Jorge e Ana voltaram para o Brasil; os outros, mudaram de emprego, casaram ou tiveram filhos ou voltaram para o Brasil.
Como disse, lá em cima, iniciei um novo ciclo. Novo emprego. Novos amigos.
Termino este post com um trecho do livro "O Pequeno Principe", com esperança de que eu venha a cativar e ser cativada milhares de vezes.



E foi então que apareceu a raposa:
- Boa dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira…
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita…
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste…
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços…"
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor… eu creio que ela me cativou…
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra…
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor… cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto…
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse…
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele…
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa…
- Eu sou responsável pela minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.









Um comentário:

  1. Claudia,

    bem o sei...
    Morando a anos aqui sei bem como são essas amizades...
    Acredito que posso contar nos dedos de uma das mãos as amizades que ainda tenho desde que cheguei...
    Não sei, posso estar errado, mas acabamos nos acostumando...
    Na verdade, antes eu ficava muito chateado, ainda mais quando percebia que "aquela amizade" não era tão amiga assim...
    Mas, como eu ia dizendo, eu ficava chateado até quando percebi que as pessoas vem e vão...
    Ficam em nossas vidas enquanto é necessário...
    Hoje, curto, convivo, vivo, converso.
    Claro que talvez com um pouco mais de zelo, mas não deixo que decepções passadas falem mais alto...
    Agora mesmo passo por algo muito dolorido, mas que culpa tem as novas pessoas que aparecem em minha vida?!
    Nenhuma...
    Acredito que todos trazem e levam algo de bom e algumas ficam para a vida toda...
    Parabéns pelo post e gosto muito deste blog.
    Você é muito corajosa em postar suas experiências.
    Abraxos

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