domingo, 27 de fevereiro de 2011

Cadê meus oculos?

Hoje de madrugada, deu terremoto. Na hora, pensei - Cadê meus oculos e minha calça? eu SEMPRE deixo os oculos na cabeceira do futon e minhas roupas do lado. Ontem, como estava meio deprê, esqueci a roupa de fuga no chuveiro.
O Beto ligou a TV procurando saber onde tinha sido o epicentro. Tudo bem, todo mundo vivo. Voltei a dormir prometendo NUNCA mais dormir sem verificar a roupa de fuga, documentos e provisões.
O mundo tá meio louco! O terremoto na Nova Zelandia prova isso.
Às 9:48, após outro terremoto, todos os canais noticiavam, no alto da tela, o terremoto em Gifu ken. Nada serio, felizmente.

Hoje não chorei

Japanofobia - fobia por japoneses e sua cultura

Hoje fomos ao Jusco de Higashiura (um mega shopping) pra matar minha saudade. Só olhar, snif...
Peguei alguns folhetos no cinema pra mandar pra Rudy e Nany, minhas amigas do Cartas.Com; olhei a loja Vanguarda (uma loja perdida no tempo - hoje, não quero falar do Japão, então darei detalhes outro dia...) e fomos na Toys"R"Us (loja de brinquedos) procurar um brinquedo que vi na TV e nem preciso falar que fiquei vendo coisas para bebês.
Cheguei animada pra contar pra Amanda tudo o que eu queria comprar pra Laís. Eu e o Lucas sentamos em frente ao computador e pela camera, vimos elas brincando. A Laís achou o pé e já está virando de lado. Me bateu uma saudade enorme dela. Conversei normalmente com a Amanda e no final da conversa, ela disse "vou levar a Laís pra benzer hoje, ela está assustada desde que voce foi embora, foi um sufoco fazer ela parar de chorar no dia seguinte. Ela não pára com ninguem, so comigo e com o Keity "
Eu deveria ficar lisonjeada e feliz ao saber que estou fazendo falta pra minha neta, mas fiquei triste.
Não quero pensar que troquei o Beto e o Lucas pela Amanda e Laís quando fui para o Brasil.
Não quero pensar que troquei Amanda e a Laís pelo Beto e Lucas quando retornei ao Japão.
Sinto que cumpri minha missão de auxiliar Amanda nos primeiros meses da Lalinha.
Desde o primeiro dia, sempre a incentivei a cuidar da Laís. Ela deu o primeiro banho e trocou a primeira fralda. Normalmente as avós/tias/vizinhas/conhecidas/desconhecidas faziam isso. Comigo foi assim. Não tive a oportunidade de "me virar".
Claro que não a abandonei e falei - Se vira! eu ficava atrás, orientando, ajudando e sofrendo por não fazer EU mesma tudo. Teve vezes em que tive que pegar a Laís do colo dos dois, pois ela não parava de chorar e nada tinha consolo. Eu pegava no colo, abraçava e falava mansinho. Ela se acalmava e dormia.
Na primeira semana, Amanda não conseguia dar de mamar, doía, a Lala não conseguia "pegar" o bico. Eu me sentava em frente dela e ficava passando a compressa de agua quente para não empedrar, ficava segurando a Lala de pé, de lado, deitada, só não tentamos de ponta cabeça. Amanda se contorcia de dor e esfregava os pés de nervoso (a Lala tambem, quando esta com sono!). Mandava ficar embaixo do chuveiro pra esvaziar o peito e brigava quando ela não queria usar a esgotadeira. Ficava incentivando e no fim, deu tudo certo. Sei que nesses momentos, eles se sentiam frustrados, incapazes, mas eles eram inexperientes e eu não conseguia ficar impassivel diante do choro que fazia tremer o quarteirão.
Depois que a Amanda disse que eu fiz falta no dia seguinte ao da viagem e que a partir desse dia, a Lala "grudou" nela e no Keity, meu coração ficou apertado, porque sei que ela se sentiu abandonada por mim e esta com medo de perder os pais tambem. Não estou sendo presunçosa, sei porque Amanda quando pequena, chorava rios de lagrimas quando voltava pra casa, apos passar o dia na casa da minha mãe.
Eu não queria abandona-la, mas eu tinha que voltar (meu visto estava vencendo) e eles tinham que viver a vida deles.
Me despedi da Amanda fazendo as recomendações de sempre e dizendo TE AMO.
Jantei e fui tomar banho. No Brasil, eu chorava no banheiro, tomando banho ou sentada no vaso. Aqui, o chuveiro é tão bom que não consegui chorar, mas fiquei uns 30 minutos debaixo da agua quente, tentando pensar que a Lala não me odeia, que ela sabe que  fiz o que achei melhor pra ela. Fiquei rezando pra ela não me esquecer e não chorar quando a pegasse no colo novamente.
Hoje estou com japanofobia (nem sabia que existia) - fobia por japoneses e sua cultura. Se o Japão não existisse, eu estaria no Brasil.



Brincadeira! Eu amo o Japão, na verdade, odeio o dinheiro. É pelo dinheiro que estamos aqui, longe da familia, da minha casa, dos meus cachorros.... da minha filha e da minha neta.



Nossa, essa TPM ainda vai me matar!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Voce conferiu??



Uma das coisas que aprendi no Japão, é ser organizada.
Essa foto mostra o meu café da manhã, com tudo certinho, pronto pra comer. Parece TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo - aqui tem mais informações) mas não é.
No Japão, além dos 5S (explico aqui), o Insu Kanri é extremamente importante e imprescindivel para o bom andamento do serviço.


Insu Kanri - controle do conjunto para a embalagem (no meu caso, fabrica de eletronicos). Por exemplo: aparelho de DVD + cabo USB + manual + CD + cabo de energia + caixa para embalagem. Respeitar a regra de contar, separar e conferir o conjunto.
exemplo de linha de produção
foto do blog do Sarmento
Às vezes, um aparelho tinha mais de 15 peças. Se a gente não contasse ANTES, DURANTE e NO FINAL do procedimento, acabava sobrando ou faltando alguma coisa. Era uma loucura. Tinha que abrir todas as caixas e procurar o erro. Voce já viu um chefe japones bravo? Eu já e garanto que não é nada bom. Já deixei a seção chorando muitas vezes. Brasileiras, japonesas, filipinas e peruanas também. Só as estudantes chinesas aguentam firme, pois elas tem um contrato que as "obrigam" a fazerem horas extras  e a trabalhar nos dias de folga. Não sei se é em todo o Japão. Na fabrica onde trabalhei era.
Em algumas caixas, tinha que colar um adesivo do tamanho do zero do teclado: azul, amarelo, vermelho, verde. E quando "a bolinha" caia no chão, grudava na roupa ou perdia? Todo mundo parava e ficava procurando. E se tivesse colado na caixa errada ou na peça?
Num DVD, tinha que colar 4 "pezinhos", que sempre dava confusão. Já foi definido que seria colado na montagem, na fase de teste ou na embalagem. Ninguem queria colar, pois era muito demorado, sempre se perdia. Na hora da limpeza, se encontrasse um no chao, parava tudo e começava o interrogatorio.
Quem consegue trabalhar com essa gente em cima? Exemplo de linha de produção
foto do Silveira Neto
- Voce fez o Insu Kanri? Contou no começo, no meio e no final do lote?
- Hai! (Sim!) respondia a coitada.
- Então por que esta sobrando?
- Wakaranai... (não sei...)
Raramente era chamada para essa conversa. Eu fazia os testes, então não trabalhava muito no setor da embalagem. Quando ia pra lá,  tomava o maior cuidado, contava, contava e contava. Mas acontecia de esquecer um cabo, um CD. A sorte era que eu contava as peças durante TODO o processo, então sabia mais ou menos onde estava o erro. Nem precisava chamar o chefe.
Nessa fabrica o numero 24 era mais importante que ouro.
24 caixas
24 cabos
24 CDS
24 manuais... etc
A cada 24 caixas finalizadas, a mesa era abastecida com mais 24 "coisas".
No final, quando sobrava uma coisa ou faltava, lá vinha o chefe:
- nijuu yon arimashita ka (tinha 24?)

Amanda, voce lembra do kompo (embalagem)? 
Depois de ter aprendido o metodo de embalagem, embalar as compras no supermercado ficava facil, né?
Bolachas em uma sacola, verduras/frutas/legumes em outra. Com a sustentabilidade o uso de caixa de papelão se tornou comum. 



SEBRAE

Fiz um curso sobre empreendedorismo no Brasil e esse assunto fez parte da palestra.
O facilitador perguntou se quando iamos ao banheiro, conferiamos se o papel higienico - depois de usado - estava limpo. Quantas vezes faziamos essa conferencia? Limpavamos até o papel "sair" limpo ou acabava ficando um resquicio e a gente deixava assim mesmo? Tinhamos preguiça (ou nojo)de conferir ou confiavamos na eficiencia do papel?
Nossa, foi muito constrangedor, mas surtiu o efeito desejado.
Ele disse pra aplicarmos a tecnica do TBD (Tirar a Bunda da Cadeira). Odeio esse tipo de linguagem. Odeio palavrão. Odeio palavras chulas. Ouvir a historia do papel higienico já foi dificil, imagina ficar olhando o homem sentando e levantando da cadeira, batendo a mão na B*...

O Café


Tudo arrumado, em ordem.
Se não tivesse feito a conferencia, poderia ter faltado a colher - como iria misturar o leite?
E se tivesse esquecido o pão? Ou o leite?
Parece bobagem, mas não é. É a vida automatizada do Japão. Como alguem que vai tomar cafe da manha, esquece o pão? ou margarina?
Esquece. Esquece de comprar, de tirar da geladeira. Somos humanos e falhos.
Nosso chefe costumava falar para pensarmos no cliente quando compra um DVD e não consegue usar, pois esquecemos de colocar o cabo de energia ou o CD de instalação. Para pensarmos no transtorno dele ao retornar ao  local da compra e na demora da reposição.
Isso me faz pensar...
Acordo morrendo de fome, às 6:30 da manhã, louca pra comer uma torrada com manteiga derretida,  tomar um leite com nescau (é..., esqueci de avisar o Beto que o cafe acabou ), ler uma revistinha vendo a paisagem pela janela da cozinha e está tudo lá, sem faltar nada (exceto pelo meu amado cafe, snif). Que sensação boa.


P.S. Eu arrumei em ordem só pra foto, hein?

Eu não gosto, mas japones adora

Esse video, peguei emprestado do blog do Paulo Coelho.

 A paixão nacional dos japoneses.
Bem... os japoneses tambem gostam de carro e tecnologia, então na verdade, não sei em que posição se encaixa.


Minha Paixão


Pra sentir saudade do frio que ta indo embora

O que mais senti falta, no tempo em que estive no Brasil, curtindo a chegada da Laís, foi da bendita Coca-Cola.
Em 2008, quando chegamos ao Japão pela milesima vez, com a familia & cia, no primeiro jantar, comemos arroz com carne moida (não me lembro se era carne moida ou  feijoada de lata) em panelas e frigideiras que trouxera do Brasil, os talheres tambem vieram (da outra vez, gastei uma fortuna equipando a cozinha; num outro post, passo as dicas para isso não acontecer). Compramos copos plasticos e......Coca-Cola!
Foi muito engraçado ver todo mundo com uma panelinha e um copo de Coca. Eu disse "não tem prato, mas a Coca não pode faltar". Registramos esse momento com fotos e muitas risadas (pena que não sei onde estão as fotos, vou tentar achar).
Em 2000, a Coca-Cola de 1500 ml custava Y168 ienes, mas já encontramos por Y158 ienes. Em 2008, custava o mesmo valor. Semana passada, fevereiro de 2011, estava..... Y168 ienes.
Hoje, no almoço, comentei com o Lucas que a unica coisa que é universal, sem alteração de sabor e embalagem é a Coca-Cola. Voce conhece algum outro? Cigarro (eca!) não vale.
No yakin (turno da noite), durante o kyuukei (intervalo), às 5 da manhã, eu tomava Coca. De manhã, acordava e tomava Coca. Antes de dormir, tomava Coca. Não sei como não fiquei da cor dela.
Natchan! laranja
http://www.flickr.com/photos/dinnininha/
Um dia, decidi me curar. Coca-Cola só no restaurante e no fim de semana. Passei a tomar natchan! (marca de suco) durante a semana.
No Brasil, Amanda cortou o refrigerante por causa da gravidez. Eu tinha dó de tomar e ela ficar olhando. Aproveitava e bebia refrigerante na casa dos parentes.
Na noite que cheguei aqui, o Beto tirou da geladeira um LINDA, DELICIOSA, GELADA E SAUDOSA COCA-COLA. Balançava a guarrafa e dizia "comprei pra voce". Mentiroso! Ele é tão viciado quanto eu. O Lucas, graças à Deus, prefere chá.

Aqui, a Renata Lima escreveu porque a Coca-Cola é A Coca-Cola. Não deixe de ler, é muito legal, uma viagem no tempo.

Pra mulher tem

Faz quase duas semanas que cheguei  e logo vou estar trabalhando. O Beto trouxe alguns panfletos, cartões e revistas para eu escolher. 
Quem nunca veio ao Japão não imagina quantos anuncios de emprego existem por aqui. Então por que tanta gente desempregada?
No inicio da febre dekassegui, não se podia escolher emprego, aceitava o que ofereciam. Era a primeira vez para todos e por falta de informação e comodidade, acabavam nas mãos das empreiteiras.
Eu fiquei felicissima com meu apartamento caindo aos pedaços, umido, gelado no inverno e um forno no verão. Lavava roupa debaixo de neve e chuva, pois a maquina de lavar ficava na varanda. Eu nunca tive maquina de lavar! Eramos iludidos com microondas, geladeira, maquina de lavar, televisão, bicicleta, panela para fazer gohan (arroz), futon (acolchoado japones ) e muitas promessas.
Quando a crise chegou em 2008, praticamente todos os estrangeiros foram dispensados. Formaram-se filas no Koukyou Shokugyo Antei-sho, a Hello Work - Agencia Publica de Emprego. Foi desespero geral, muitas familias foram morar literalmente embaixo de pontes. Brasileiros menos precavidos viveram da ajuda do governo até conseguirem trabalho. Aqui em casa, o Beto ficou recebendo seguro-desemprego por quase um ano. Foram tempos dificeis, mas graças ao bom desempenho, responsabilidade, pontualidade e comprometimento (essencial para o chefe japones), ele voltou para a mesma fabrica. Eu e Amanda não fomos dispensadas porque somos mulheres.
Nossa, o Japão protege as mulheres, né?
Nada disso. Mulher é valorizada porque faz "serviço de homem" e ganha menos. Simples assim. E nada justo.
Por conta disso, muitos maridos ficaram em casa, lavando, passando, cozinhando, limpando e cuidando dos filhos.
Eu fiquei muito orgulhosa do meu marido! Ele ia levar e buscar no trabalho, fazia comida e deixava a casa limpinha e a roupa lavada. Nossos amigos japoneses comentavam "dana san wa yasashii na!" - seu marido é bonzinho, né?
Quando chegava em casa, sentavamos todos à mesa para jantar e comentar sobre o dia na fabrica. Ele me abraçava e falava que tinha dó de mim e da Amanda. Que ELE é que deveria estar trabalhando.
O bom disso tudo, foi ele ter feito aulas de nihongo (idioma japones), que eram obrigatorias e ter ganho MUITOS livros que eu acabei aproveitando.
A palavra que marcou esse momento para muitos homens foi ikuman, formada pelas abreviações de ikuji (cuidar de crianças) e man, de homem, em ingles. Li sobre essa palavra na revista Alternativa, edição de dezembro de 2010, que dizia que essa palavra marcara o ano, mas eu discordo. Essa palavra passou a existir na crise de 2008.
Muitos brasileiros continuaram desempregados porque estavam acostumados com salarios altos e empregos que não eram 3Ks - kitanai (sujo), kiken (perigoso) e kitsui (pesado), e o que a Hello Work normalmente oferecia era esse tipo de trabalho, com salarios muito abaixo da media. 
Esses brasileiros, experientes, já podiam alugar apartamentos e comprar sem ajuda das empreiteiras. Aprenderam o idioma (alguns, mesmo depois de decadas, não aprenderam nada) e não se deixavam enganar facilmente. Muitos se tornaram arrogantes.




Dekassegui




Qualquer pessoa que deixa sua terra natal para trabalhar temporariamente em outra região ou país é designado, na lingua japonesa  como dekassegui - 出る (deru, sair) e 稼ぐ (kasegu, para trabalhar, ganhar dinheiro trabalhando).
Durante muito tempo, o Japão foi o paraiso dos brasileiros que queriam ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Eu comprei, reformei e mobiliei minha casa em dois anos. Estava casada a 10 anos e pensava seriamente em pedir financiamento na Caixa Economica. Torcia desesperadamente pelo sorteio das "casinhas" do governo. Quando estavamos para assinar o contrato, recebemos o convite para ir ao Japão.
Depois de toda a documentação pronta, veio a noticia. Tinha trabalho para mim, mas o Beto teria de esperar mais alguns meses. Isso aconteceu em 2000. Seria um pressagio para o que iria acontecer em 2008?
Decidimos ir juntos e esperamos ansiosamente pela viagem. Seriamos finalmente dekasseguis.
Essa aventura, contarei em um outro dia.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

MASAKA ! !

Esse video emprestei da Karina

Masaka! Quer dizer: Não pode ser! / Não me diga! / Quem diria?

Bem... algumas coisas eu já sabia, e fiquei confusa com outras.
Sobre a comida, não fazia idéia do desperdicio. Quando cheguei pela primeira vez ao Japão, tive muita dificuldade para me acostumar a comprar pouca comida (lembra do post sobre a cebola?, contei aqui).
 Para economizar e porque chegavamos tarde e tão cansados que compravamos as refeições na fabrica.
 Eu como pouco. O Beto costumava dizer que passarinho come mais que eu.
normalmente era assim
Eu não conseguia comer tudo, o gosto era estranho, tinha sempre uma fritura, que me dava dor de cabeça.
Curry Rice
O Beto pedia - todos os dias - Chahan, uma especie de arroz de forno (arroz, ovo, cenoura, milho e ervilha). Eu adoro Kare Raisu (Curry Rice), mas vinha tanto, que eu acabava desistindo de pedir.
Chahan
Tinha uma senhora que servia, que me achava muito kawaii (bonitinha) . No dia do Curry Rice, eu falava pra ela "coloca pouco", "menos, menos". Ela me olhava e dizia "voce vai ficar doente" e colocava um monte. Eu queria chorar porque os nossos amigos japoneses falavam que era mottainai - desperdicio, deixar comida no prato, que na epoca do pós - guerra faltava comida, então era falta de educação jogar comida fora.
Mas eu gostava tanto que acabava pedindo. Na hora de levar o prato, eu tinha uma estrategia: enquanto o Beto distraia ela, eu jogava o resto no coletor e dava uma mexida pra disfarçar. Quando ela via o prato limpo, ficava tão contente, que cortava meu coração.
Ela sempre me dava bolacha, bala, pãozinho. Um dia trouxe uma sacola cheia de ponkan, colhido do quintal dela!
Sei que o povo japones é timido, mas nossos amigos são tão expansivos e calorosos. Não existe o contato fisico, o abraço, o beijo, mas o resto compensa.



O chefe japones


Eles são receosos, desconfiados e demoram a confiar em voce. Um chefe japones pode ser extremamente cruel com um novato, seja ele estrangeiro ou não. 
No nosso primeiro trabalho, haviam varios chefes, divididos em 4 turnos. Um em especial, era muito chato. Jogava coisas no chão pra voce pegar, gritava, humilhava, brigava. Mas era solicito e muito justo. Se voce trabalhava bem, ele te deixava em paz. Como eu era uma das poucas que entendiam um pouco o nihongo (idioma japones), sobrava pra mim as traduções. Quando não entendia o que ele falava, saia pisando duro, falando "My God" e deixava a gente lá, com cara de bobo. No trabalho usavamos um uniforme que só deixava os olhos de fora. Os olhos dele eram de arrepiar de medo. Nós o chamavamos de Smurf, porque era o unico que usava roupa azul, o resto era branco. Ele andava arrastando a pulseira anti-estatica pela seção. Até hoje, 11 anos depois, ainda tem gente que tem medo dele.
Com o tempo, eu e o Beto fomos conquistando sua confiança - que fique bem claro que não eramos puxa-saco. Ele se tornou um amigo maravilhoso. O Beto, com seu jeito brincalhão e expontaneo o conquistou. Eu tive que trabalhar muito, traduzir muito. Acabei me tornando sua "assistente". Quase sempre, faziamos o intervalo juntos. O resto do pessoal fazia no horario normal. Levei um susto quando o vi sem uniforme! Ele usava o cabelo a lá Elvis e a lapela levantada. Vinha trabalhar numa Harley-Davidson e era rarissimo ve-lo sem uniforme.Quando houve o 11 de Setembro - mais de 300 brasileiros foram dispensados e sei-la-quantos japoneses foram remanejados - ele nos chamou e com lagrimas nos olhos, nos disse que  não poderia fazer nada e que era pra procurarmos outro emprego o mais rapido possivel, até então, não sabiamos que estavamos na lista de corte. Na despedida, a unica pessoa que não tirou fotos com a gente foi ele. Não precisa, ele vai ficar pra sempre na nossa memoria.



O amigo japones


O Sawada san, era o mais jovem dos chefes. Ex-universitario de Administração, largou os estudos pra lutar karate (kara = vazio te = mão). Ele "adotou" o Beto e o levava para todos os lugares. Tirava ele do trabalho para irem fumar. Não era justo, eu trabalhava e o Beto brincava.
Bem... na verdade, o Beto trabalhava mais que eu, era mais rapido e sempre me ajudava, pegando as caixas pesadas.
Praticamente inauguramos a Sharp 2, no começo eramos 5 pessoas na seção (depois de 3 anos, havia mais de 40). No começo não havia trabalho, a fabrica estava em estagio de adaptação e ajustes. Durante a noite, no turno dele, falava Oyasumi (Boa noite) e mandava todo mundo dormir. Eu pensava "isso é o Japão?". Nos outros turnos, os chefes mandavam a gente estudar japones e os manuais. Estudei tanto que acabei virando a tradutora dos procedimentos de trabalho.
Foi muito gratificante ajudar os brasileiros a entenderem os manuais. Quando saia uma peça nova, lá ia eu no escritorio pegar o material pra traduzir. Sabe o mais engraçado? Meu nihongo era de "indio", funcionava mais na intuição. O menino responsavel pelo manual tinha a maior paciencia, explicava ate eu entender. Eu fazia a tradução (o desenho com as medidas limite e o nome dos defeitos) e depois ele conferia. Era muita responsabilidade, porque 1 micron calculado errado poderia descartar ou aprovar um lote inteiro.
Ele era muito bonito e tinha os olhos mais lindos do mundo! Se parecia muito com meu filho. Fazia muito sucesso entre as japonesinhas e era invejado e respeitado pelos japoneses. Usava uma pulseira de prata que era sua marca registrada. Rebelde, arregaçava as mangas e não usava booshi (bone). O turno dele era o mais light, mais gostoso de trabalhar e o que mais produzia. Entre os 4 turnos havia uma disputa para ver quem produzia mais.
Quando ele ficou doente, mandamos um cartão e meu cachorro de pelucia. Logo que voltou do hospital, o encontramos no patio. Agradeceu os presentes e quando eu disse que o cachorro era meu, que não tinha comprado, ele tirou a pulseira e entregou para o Beto. Nesse momento, os japoneses que o acompanhavam se entreolharam assustados. Correu a noticia pela fabrica inteira!
O Beto guarda até hoje essa pulseira.
Depois posto a foto dele e do Beto usando a pulseira

Uma cebola e duas batatas

Minha primeira compra após meses fora de casa
Um homem parou em frente a uma casa e vendo uma senhora cuidando do jardim, pediu um prato de comida. A senhora entrou, em seguida trouxe uma cebola e duas batatas. Ao entregar ao homem, este perguntou: - O que vou fazer com isso?
- Eu faço uma sopa - respondeu ela, sarcasticamente.
O homem se afastou desconsolado.


Essa historia me foi contada a muito tempo, mas nunca a esqueci porque conheço a mulher. Todos que ficaram sabendo, ficaram indignados com a atitude dela.
Fico tentando adivinhar o que passou pela sua cabeça. Foi pura maldade? Achou que era desaforo um homem saudavel (?) pedir comida ao invés de trabalhar? Ou simplesmente achou que ele faria uma sopa?
Conhecendo um pouco ela, fico com a segunda opção.

Vivendo no Japão, aprendi a valorizar cada centavo e a não desperdiçar comida. É normal encontrar legumes e frutas embaladas uma a uma. Por que comprar 1 kg de cebola, se vai usar somente uma? No Japão, fruteira só com frutas de plastico. Não conheço ninguem que tenha uma fruteira em cima da mesa, cheia de frutas frescas, enfeitando e colorindo a cozinha.
Maçã, banana, ponkan e o morango ficam na geladeira.
Levei um susto - quando cheguei pela primeira vez ao Japão - ao ver bandejas com UMA maçã, ou TRES bananas. Bandejas com UM, DOIS ou TRES tomates. Cebolas embaladas uma a uma.
Deve ser porque é caro, pensei.
Fiz como no Brasil, enchi o carrinho. Pacotes de bolacha, pão, alface, espinafre, litros e litros de coca-cola, e muitas cebolas, tomates e bananas - adoro banana.
Os japoneses olhavam estupefatos! Passei dois carrinhos cheios.
Em menos de uma semana, joguei fora tomates apodrecidos, bananas passadas, pão embolorado...
Será que os produtos daqui não prestam?? Que nada. Durante o verão, se não consumir rapidamente os alimentos, estragam mesmo. Nem adianta deixar na geladeira.
Depois de muitos tomates perdidos, aprendi a comprar para a semana. Se vou usar UM tomate, compro UM tomate.
Mas o que isso tem a ver com a cebola e as duas batatas lá de cima?
Não quero justificar o que a mulher fez, achei maldade... Ela poderia ter dado um pão, por exemplo.
O que quero dizer é que estamos acostumados com fartura. De frutas e sentimentos.
Não importa a qualidade nem se vou consumir tudo. Estragou, joga fora.
Generosidade deve ser doada com qualidade e não com quantidade.
Realmente, eu faria coisas deliciosas usando como ingredientes, somente cebola e batata.
O homem não queria nada sofisticado, queria saciar a fome do estomago e quem sabe, da alma tambem.
Um pão amanhecido, um restinho de comida que sobrara do jantar e uma palavra amiga fariam a jornada dele mais branda.
Uma noite apareceu um homem em casa pedindo uma colher. Isso mesmo, uma colher.
Ele tinha perdido o ultimo onibus pra voltar pra casa e nao tinha dinheiro pra comprar comida. Ganhou um prato de comida de alguem da vizinhança, mas não tinha como comer. Nós damos a ele, um joguinho daqueles que vem junto com marmitex - garfo, faca e guardanapo - pão e mexerica. Ele se sentou na calçada e comeu ali mesmo.
Que vontade de convida-lo a entrar e se sentar conosco. Mas eu não o conhecia, não sabia de onde vinha ou para onde ia. Temi pela minha familia. A responsabilidade pelo bem estar da minha familia falou mais alto que minha generosidade.
Infelizmente...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Eu Sei Que Você Usa Batom



Admiro mulheres bonitas. Me comparo, tento fazer e ser igual. 
Nunca consigo, claro. Mas sonhar é preciso e é bom ter uma referencia, um ideal a seguir.
Todas as manhãs, acordava cedo só para ver a Renata Vasconcellos no Bom Dia Brasil. Era muito legal ver ela apresentar o JN aos sabados, também.
A cada bloco, o cabelo estava de um jeito diferente. Linda, simpatica e carismatica. 
E a Cristiane, então?
Quando vi esses videos, choquei!
Vaidosas ao extremo... Foi decepcionante ve-las se maquiando, se preparando para representar um papel. 
Sabe quando voce descobre que o Papai Noel não existe e que o coelho da Pascoa é a sua mãe? Que a Fada dos Dentes joga seu dente fora e que você não veio na trouxinha da cegonha?
Por outro lado é reconfortante saber que elas precisam de um batom e um espelho pra ficarem lindas.
Só uma duvida: Será que a simpatia e o carisma tambem estao maquiadas?

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Amor e pantufas

Beto, do Japão ao telefone: "Bá, comprei pantufas pra voce".
Eu, no Brasil pensando antes de responder: "Tantas coisas pra comprar..."




Durante a viagem, não pensei em nada especifico, focando nas pessoas e no lugar, tentando não pensar na Laís e na Amanda. Foi dificil, mas conversando com o pessoal que conheci, acabei me distraindo.
Na saída, vi o Beto através das portas de vidro, de preto e boné... No meio da multidão, eu só conseguia ver ele, escondidinho e sorrindo. Não vi o Lucas, talvez ele estivesse ao lado, mas meu coração só conseguia ver aquele homem de preto, me esperando. Contive a vontade de largar o carrinho das bagagens e sair correndo. Acenei alegre e andei calmamente, com o corpo inteiro vibrando de vontade de chorar.
Quando o abracei, chorei. Pelo tempo em que ficamos separados, pela saudade, pelo medo de o ter perdido...
Ficamos nesse abraço por muito tempo. Eu sabia que o Lucas estava atrás, mas ele entendia a demora e  esperou.
Finalmente, caí nos braços dele e secando minhas lágrimas, ele me acalmou.
Eu estava em casa!
Sinto o Japão como minha casa oficial.
Quando abri a porta do apartamento, minhas pantufas novas estavam no hall - o meu presente de boas vindas. Elas disseram "Okaerinasai" e eu respondi "Tadaima".
Começou a nevar pela manhã e continuou até a noite
É incrivel como o amor se transforma com o tempo.
O Beto sabe exatamente o que me deixa feliz e faz de tudo para isso acontecer. Ao comprar pantufas, ele pensou no frio que eu sentiria ao chegar em casa. Pensou na dor dos meus pés depois de 2 dias viajando, ou simplesmente olhou para elas e pensou "a Bá vai gostar". Poderia ter enchido a casa de flores ou de chocolates (adoro!). Mas ele comprou um par de pantufas, limpou - com o Lucas - o apartamento inteiro e trocou TODOS os tapetes da casa.
Entrei admirada e olhei todos os comodos, reparando nos tapetes - verdes - do banheiro e chuveiro. Ele me mostrou os tapetes do quarto, do hall e da cozinha, falando que estavam bem velhinhos, mas eu sei que ele trocou porque sabe que eu gosto de tudo arrumadinho e limpinho. Até a Tusha (minha tartaruga) tomou banho!
Fomos jantar no Saizeria e pedi o de sempre - mini focaccias, minestrone e capuccino. Ah, e bebi a Pepsi do Beto. Tudo tinha voltado ao normal. Exceto pela ausencia da Amanda.
Acho que o amor é como um fruto. O meu amor está frutificando, a Laís é a prova viva disso.
Meu amor já não é mais verde, mas ainda não amadureceu, está em plena vivacidade. E como todo fruto, está à mercê das intempéries e "predadores". Não falarei deles, pois a vida se encarregará de afasta-los.
O Beto foi trabalhar (esta semana, está de yakin - noite), o Lucas está procurando um filme para assistirmos e eu estou aqui, morrendo de frio, enrolada no cobertor. Como sou um pouco melodramatica, já me ligou 3 vezes, avisando que estava na estrada a 30 km/h por causa da neve, depois que havia chegado na fabrica e a alguns minutos atras, que estava no intervalo do trabalho.
Outro dia, falei para o Keity que não é o amor que mantém um casamento feliz; é a cumplicidade, o companheirismo, a lealdade e o comprometimento.
O amor nos leva ao casamento, mas sozinho, não consegue mante-lo, porque se assim fosse, para reparar certos erros, bastaria dizer "Ela sabe que a amo, vai entender e me perdoar", "Ah, vou fazer (ou não fazer) porque ela sabe que eu a amo e vai me apoiar". É tão facil culpar o amor.
O amor é importante, mas não essencial.
Para as pessoas que estão na fase verde do amor, pode parecer tudo morninho, sem graça e chato.
Na fase verde, tudo é novidade, parece que "uma cabana e amor", "viver de brisa e amor" faz todo o sentido. Nessa fase, nos sentimos poderosos e invenciveis e vivemos egoisticamente.
E não nos damos conta de que é exatamente a fase primordial para o amadurecimento ou apodrecimento da relação.
Ontem, meu amor calçou pantufas novas, bebeu café engarrafado, viu neve (pedi tanto!), tomou banho na hidromassagem e namorou a noite toda, entrando pela madrugada e só parou de manhã. Tudo bem calminho e garanto que não foi nada chato e sem graça.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Esperando a vida passar

Às vezes, quando estou triste, fico na janela vendo a vida passar. Às vezes, converso com as paredes. Às vezes, choro no banheiro.
Admito que sou uma pessoa dificil. Defendo minhas opiniões com uma certa resistencia. Mas aceito quando estou errada - não sem luta - mas aceito.
Às vezes, eu queria que um buraco se abrisse e me engolisse para que  nem o CSI conseguisse me encontrar. Eu queria que a vida passasse rapidamente e que tudo virasse pó.
Queria nunca ter que decidir, escolher, ajudar, defender, brigar, amar. Queria que a vida simplesmente passasse pela minha janela e que eu fosse uma meramente espectadora.
Quando criança, li uma historinha da Luluzinha onde ela estava com insonia e ficou acordada ouvindo os sons da madrugada. Gatos miaram, cachorros latiram, guardas apitaram e o lixeiro retirou o lixo. Durante o cafe da manha, ela contou aos pais que ficou maravilhada e surpresa ao descobrir que o mundo não para quando ela dorme. O pai resolveu fazer o mesmo e ficou acordado a noite toda. Na manhã seguinte, frustrado, falou que não escutara o lixeiro. A mulher - rindo - falou que o lixeiro só passava às quartas.
Lembrando dessa historia, fico olhando pela janela e percebo que existem pessoas que vivem independentemente da minha tristeza. A vida segue em frente. O lixeiro não passa todos os dias, mas sempre estará lá, nem que seja um dia por semana.
Na minha ansia de ajudar, acabo sufocando. Protegendo mais que o necessario.
E sofro por descobrir - tarde demais - que as pessoas conseguem se virar sem mim.
Eu me preocupo com o que as pessoas pensam. Eu quero ser aceita, querida, solicitada.
Mas acabo criando inimizades por conta desse meu jeito de ser. Tomo as dores, sim!
E isso esta errado.
"Deixa pra lá" o Beto me diz. "Abandona" minha cunhada costuma dizer.
As paredes não respondem nem me recriminam. O banheiro me esconde, mas não isola o barulho dos soluços. Gosto da janela porque ela me lembra que não sou o centro do universo.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Arrumando a casa

Puxa, não tenho a menor paciencia e conhecimento para arrumar o blog, do jeitinho que eu quero. Todos os dias, mexendo aqui, descobrindo ali, perguntando, vou arrumando. Agora por exemplo, estou fazendo um teste de postagem.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Aniversário da Julinha

Foi tudo muito lindo!
A decoração, as pessoas, o atendimento impecável do buffet.
Fiquei emocionada quando vi os convidados assinando no livro de assinaturas. O melhor de tudo é que a  Jaque adorou.
Ficamos tão empolgadas com o livro que esquecemos de tirar fotos dele pronto. Não teve jeito, tiramos na festa mesmo. Pena que a Jaque não levou a caixa. De madeira, na tampa, fizemos um patchcolagem de tecido e papel com o nome dela.
Prévia do que nos esperava

Que pena desmanchar...

A Turma toda estava lá


Bolso para colocar DVD


É gratificante ver um "filhote" pronto

E os creditos vão para....