domingo, 26 de junho de 2011

Transporte no Japão # Lata de sardinha no Japão é caviar


Todos os dias, pego o trem que sai às 7:16. Às vezes, quando saio atrasada de casa, pego o das 7:29. Em ponto. Aqui, trem raramente se atrasa e quando acontece, durante TODO o trajeto, eles informam quanto tempo está atrasado e pedem desculpas. Se voce tiver o azar (ou sorte, no caso de VOCE estar atrasado)de  pegar um desses, vai ficar ouvindo quantos minutos  vai chegar atrasado no trabalho e assim, poder pensar na desculpa que vai dar pro chefe.

Rotina diária:

  • saio de casa às 7:07, 7:08, 7:09, 7:10 - depende do meu animo
  • estação de casa - 7:16 ~ 7:36 - quando to com preguiça ou enrolo pra sair, pego o das 7:29
  • estação para troca de linha - 7:54 ~ 8:14 - na troca de linha, quando pego o das 7:29, tenho 6 minutos pra sair do trem, subir as escadas, passar pela catraca, comprar outro bilhete, passar a catraca, descer as escadas, entrar no trem e se der tempo, dar uma respirada e jurar nunca mais pegar o das 7:29.
  • parada pra comprar uma barrinha de cereal (viciei)
  • chego na fabrica 8:35
  • entro na seção 8:45
  • saio da seção 22:10
  • estação da fábrica - 22:29 ~ 22:49 - pra pegar esse horario, corto a fila do cartão de ponto, vou tirando o uniforme no corredor, subo as escadas, arrombo a porta do armario, coloco o uniforme no cabide, vou falando tchau pras pessoas, desço as escadas (5 andares, quase cem degraus), troco de sapato, atravesso a linha de trem, ao invés de ir pela passarela, compro o bilhete, passo a catraca, e entro no trem. Ufa!! Hoje deu tempo, penso. 
  • estação pra troca de linha - 22:58 ~ 23:18
  • chego em casa às 23:30 - na volta, tento andar depressa, mas as pernas não me obedecem, coitadas...
  • jantar às 23:40 - nem tomo banho antes, porque o Lucas fica me esperando pra jantar, chego em casa, falo "oi, Lu. Vamos jantar?"
  • cama...
  • levanto às 6:00 - mas já acabou a noite??? 

Entendendo o sistema de transporte japones

  • Terremoto seguido de tsunami - 11 de março 2011



Repararam que todos estão aguardando nas catracas, de forma organizada e silenciosa? Que nas escadas, estão sentados deixando espaço pra passagem?
Tenho vontade de chorar ao ver essas imagens. Não vejo passividade nem indiferença, mas respeito. Respeito à dor das pessoas atingidas. Respeito ao próximo, ao seu país.
Não vejo pessoas chorando histericas ou indignadas por esperar horas até poderem voltar pra casa. Muitas pessoas passaram a noite nas estações.



  • Comprando o bilhete


mapa
tabela periodica
Parece a tabela periodica, mas ao invés de formulas quimicas,  estações. Nem todos os mapas trazem o nome das estações em letra romanizada e se voce não lê kanji nem fala japones, corre o serio risco de se perder. Decifrar um kanji é mais complicado que descobrir a formula de um actinidio.
Se voce estiver familiarizado com trem ou metro de outros países, vai conseguir entender mais facilmente. Eu sou bicho do mato, só andei de metro quando era criança e nessa época,  era puxada pela mão e não precisava me preocupar em achar a cor certa, nem a direção a seguir.


Se não conseguir entender,  procure levar o nome da estação ou cidade ou uma referencia - museu, aquario, ginasio de esportes por exemplo - escrito em um papel e mostre ao atendente. Em algumas estações não tem cabine, só essas maquinas automaticas, então compre o bilhete de menor valor e quando chegar ao destino, pague a diferença, na cabine ou nas maquinas de ajuste de valor.
Mas não escreva nome de loja comercial ou loja de conveniencia, porque tem uma em cada esquina.
"Ah, eu moro do lado do 7 Eleven, mas preste atenção, porque na minha rua tem 3".


Ao comprar o bilhete, preste atençao às placas de horario e plataforma. 


Em alguns trens, existem esses mostradores indicando a proxima parada. 



Dica: não aceita moedas de ¥1 ou ¥5. Se usar moedas de ¥10 , o maximo que aceitam é 20 moedas.
Outro dia, levei um monte de moedas de ¥10 e fui colocando, quando começou a devolver, pensei que a moeda não era "boa" e fui trocando e nada, continuava caindo.
Interfonei para o guardinha e falei que não estava aceitando minhas moedas. Pensem... às 7 da manhã ninguém está com o cerebro funcionando direito. O homem falava e eu não entendia. De repente, acho que acordei e entendi. Coloquei 20 moedas de ¥10 = ¥200 . Ele falou pra eu comprar o bilhete de menor valor - ¥180  - e pagar a diferença antes de passar pela catraca na estação onde iria desembarcar.
Dica:  um segundo aqui no Japão é um segundo. Preste atenção ao horario. Eu fiquei conversando com o guardinha e me esqueci do horario, quando consegui entender o que era pra fazer, o trem partiu e eu fiquei acompanhando com os olhos ele indo embora...


  • meu vizinho não fala comigo



Todo japones tem um celular e ao entrar no trem, eles tiram do bolso, da bolsa, da mochila e ficam assim, durante a viagem toda. Depois que habilitei o serviço de SMS no meu, também entrei para o clube, fico trocando caretinhas com o Beto ou Lucas.
Achei muito lindo uma velhinha, acho que perto dos 90 anos, que viajava SOZINHA, atender o celular-rosa-com-penduricalhos e falar que estava no trem e que mais tarde retornava a ligação. Fiquei de boca aberta quando ela começou a passar email e acessar a internet.


Tem coisas que não se deve fazer em publico, pelo menos, na minha opinião. É muito desconfortável ver uma mulher puxar a palpebra para passar rimel ou lapis, ficar passando corretivo até a ultima pinta desaparecer, lutar com a colinha dos cilios postiços. Kimochi warui, eu diria.
Acho que a mulher deve manter em segredo alguns truques de beleza. Acorde mais cedo e faça a maquiagem em casa. Antigamente, era sinal de elegancia, uma moça retocar o batom. Era sexy.
Hoje, pra passar o batom, fazem careta e arreganham os dentes, horrivel...
Passar um lenço pelo rosto, pra secar uma lagrima ou conter um pingo de suor era tão bonito. Hoje, passam lenços umedecidos pelo rosto e pescoço, parecendo que estão limpando bumbum de bebê.
Só falta cortar as unhas e passar esmalte dentro do trem, ou fazer escova.


Adoro viajar quando o trem está assim. Dá pra ver a paisagem, relaxar, curtir a viagem.


  • Eu quero!



Agora não precisa mais arrombar o cofrinho pra comprar um suco ou pagar o trem. Aquela desculpa que esqueceu a carteira não cola mais. Pratico, rapido, mas impessoal. 
Ainda continuo usando minhas moedinhas pra comprar uma agua e o bilhete do trem, mas sinceramente, gostaria de não ter que ficar parando nas maquinas automaticas de venda de bilhetes, por causa do tempo e das filas. Mas como sou um pouco distraida, teria que amarrar o celular no pulso. Imagine não levar dinheiro e perder o celular. 

  • Viajou? Não esqueça do presente para os amigos.



Aqui é tradição. Viajou, tem que trazer presente para os parentes, amigos e colegas.
Quando viajo, sempre compro mas acabo comendo tudo. Como é muito caro essas caixas de bolachinhas,  compro no maximo duas. Chegando em casa, tento experimentar só um, mas não resisto, como a maioria. 
Na fabrica, na epoca dos feriados, sempre tem bolachinha pra comer. Às vezes, não concordo com esses presentes, pois são o termometro do seu relacionamento. Se não ganhar, é porque voce não é considerada como amiga. Eu fico no meio a meio. Nunca dou, então não fico chateada quando não ganho.


  • Não basta comer caviar, tem que saber saborear


(...)Recentemente eu vi o resultado de uma pesquisa que mostrava as coisas que mais aborrecem os próprios japoneses dentro do trem. Pelo resultado, creio que já dá para se ter uma idéia do que é andar de trem no Japão. Vamos às mais votadas:
1位【乗車時にちゃんと並ばず、割り込んで乗車】(65.2%)
1. Não ficar na fila na plataforma e furar na hora de embarcar
2位【携帯電話で話している】(57.1%)
2. Falar ao celular
3位【足を広げて座席に座っている】(52.9%)
3. Abrir as pernas quando sentado 
4位【知り合い同士、大声で話している】(41.3%)
4. Conversar em voz alta
5位【ヘッドホン・イヤホンからの音漏れ】(40.6%)
5. Ouvir música  a tal ponto que quem está do lado possa ouvir também
6位【電車のドア付近に立って、降りる人の邪魔になっている】(40.5%)
6. Ficar feito um dois de paus na porta e atrapalhar quem quer descer
7位【化粧をしている】(32.4%)
7. Maquiar-se
8位【鞄・リュックなどを手に持たず、背中に背負ったまま】、【新聞・雑誌などを広げて読む】(31.3%)
8. Ficar com bolsa ou mochilas nas costas, ler com a revista ou jornal escancarados




Não sei se ainda está valendo, mas em determinados horarios, somente mulheres podem embarcar, devido a casos de assedio.


Beber bebida alcoolica, comer, falar alto, ouvir musica alta é pra se fazer no bar. Se voce está feliz ou comemorando, nem todos partilham desse momento. Tem gente cansada, com dor de cabeça, triste, que brigou com o namorado, que quer dormir ou ler.


Mulher fala!, adora discutir a relação, não dispensa uma fofoca, mas por favor, respeite nossos ouvidos. Eu não estou interessada no caso da vizinha, não estou interessada no que vai cozinhar no jantar, nem quero saber se seu marido gastou todo o dinheiro no pachinko ou no sunaku.

Nos trens tem lugares prioritarios e tem um adesivo na janela indicando a quem se destina e um aviso "Não usar o celular nesses lugares".

As pessoas não respeitam os idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo ou deficientes e acidentados, mas respeitam o aviso, normalmente não falam ao celular.
É incrivel as gestantes terem que usar um chaveiro dizendo que estão gravidas para não terem que pedir o assento, é um "aviso"  para os outros se levantarem e cederem o lugar. O problema é que alguns espertinhos fingem que estão dormindo e não se levantam. Usam essa estrategia com os idosos tambem.



Uma vez, eu estava sentada nesses bancos e entrou uma gravida, mas eu não vi, estava distraida. Quando me virei, aquela barriga enorme estava bem no meu nariz. Claro que me levantei na hora e dei o lugar, os outros nem se mexeram, continuaram  no celular ou dormindo.
Na sexta feira, entrou um velhinho, e fiquei com receio de ele se ofender ao oferecer o lugar, então fiz de conta que ia descer e falei doozo e apontei o banco. Ele se sentou rapidinho, só estava esperando eu me levantar. Fiquei com raiva de uma mulher ao lado dele, de olho no meu lugar também e se eu não tivesse ficado na frente dela,  com certeza se sentaria.

Como já estive gravida duas vezes e estou no caminho da melhor (?! quem inventou isso?) idade, entendo a necessidade de viajar sentada.





domingo, 19 de junho de 2011

Trabalho no Japão 3/3 # Tadashii oboeru made, shoganai...misu ippai narimasu

Se escrevi errado o titulo, me desculpem... Meu nihongo está enferrujado. Não consigo estudar sozinha, sinto falta das aulas. Todos os domingos, eu, Beto e Eloi recebiamos o sensei em casa para estudar japones, e ele era linha dura, trazia exercicios,  textos para interpretação, CDs para treinar audição. Os textos para leitura sempre sobrava para eu fazer. Eu conseguia ler todos os kanjis e a interpretação resolvia rapidinho. O Beto e o Eloi  eram bons de ouvido, não consigo entender sem olhar nos olhos da pessoa, mas na prova de proficiencia, fui bem. Graças ao empenho e a dedicação do sensei, eu e Eloi conseguimos passar na prova.
Como fui para o Brasil, ano passado, o estudo ficou esquecido... Sinto muitas saudades daquelas tardes. Como um bom japones, o sensei tambem tinha regrinhas.


  • Dez minutos para ler algum artigo (em portugues) que ele trazia, revista, jornal, etc. Quando encontrava alguma noticia interessante, fazia copias e nos entregava.
  • Uma hora e meia para resolver exercicios, fazer interpretação de texto, ouvir CD e depois responder a perguntas. Enquanto resolviamos, estudava portugues.
  • O restante do tempo, era para conversação, tomar café, dar risada e comentar as diferenças entre Japão-Brasil. Ele sempre trazia um texto que traduzira para o portugues e pedia que corrigissemos. Ao ler um livro, anotava as palavras que não entendia ou não conseguia traduzir e pedia que explicassemos. Quando eu traduzia para o Beto as nossas conversas, ele prestava atenção, porque dizia que eu falava de um jeito bem facil de entender.
  • No simulado do teste de proficiencia, controlava no relogio o tempo para cada item e não permitia conversas nem perguntas.
Ganhei dele, os dicionarios da Noemia Hinata, os livros de kanji Nihongo no Kiso I e II, dois livros de simulados da prova de proficiencia e um dicionario avançado de kanji. Eu queria pagar por eles, mas ele dizia que nós não podiamos gastar, que tinhamos que juntar dinheiro pra voltar logo pro Brasil.
Sem o estimulo dele, não tenho animo pra estudar. 
Estou 'pagando' por isso... No trabalho, to tendo dificuldades pra entender as explicações do chefe. Como estou em uma seção diferente, sou novata, apesar de conhecer alguns procedimentos. 
No primeiro dia, trabalhei na antiga seção e fiquei S-O-Z-I-N-H-A numa linha. Ninguem supervisionando, nem controlando. Fiquei 'fora' quase dois anos, mas me lembrei de TUDO e não cometi nenhum erro.
Na nova seção, tudo é diferente! Não tenho a quem perguntar porque trabalhamos eu e uma tailandesa e ela também é novata. Ela tem uma vantagem sobre mim: entende e fala perfeitamente nihongo, mas.... eu tambem tenho um trunfo: sei ler e escrever kanji (os necessarios, claro). Decidimos então, nos juntar . Ela esclarece minhas duvidas e eu decifro e escrevo os kanjis.
Perguntar para o chefe? Só em casos extremos, ele não tem muita paciencia.
Bom... comecei esse texto no dia 9 e estou terminando hoje, dia 19. A tailandesa tambem me abandonou, e agora??

Se voce conseguiu passar pela entrevista e conseguiu o emprego, está seguindo as regras do 5S, 4M, Hou-Ren-Sou e cia, e agora está preocupado em manter seu emprego, não se preocupe, tudo vai dar certo se seguir mais essas dicas:

Quando receber uma explicação e não entender, pergunte até entender tudo, sem ficar nenhuma duvida. Nunca fale hai! se não entendeu, o chefe vai ficar muito irritado. Normalmente, os japoneses tem paciencia para explicar, se não tiver, fale que está tendo dificuldades em entender e peça para que  explique de uma forma mais facil.
EU> hai! e fico torcendo pra ele sair o mais rapido possivel de perto pra fazer as coisas mais calmamente, mas quando tenho duvidas, tenho que esperar ele voltar, às vezes parece que adivinha e entra na seção como quem não quer nada. Preciso perder essa mania de falar hai! pra tudo.

Não minta, não esconda, não invente, não tente resolver NADA sozinho. Se tiver duvidas, não pergunte pra qualquer um, nessas horas sempre tem um que diz que sabe, mas na verdade, sabe menos que voce. Quando o chefe estiver explicando, pergunte se quando voce tiver dificuldades durante o trabalho e ele não estiver por perto,  quem voce deverá consultar, mas procure aprender rapido, tente absorver todas as informações e se possivel faça anotações em um papel.
EU> trabalho sozinha na seção, quando faltou um material, perguntei para uma chinesa e uma japonesa onde poderia conseguir mais. Elas, sem muita vontade de ajudar, falaram que era para eu perguntar para o chefe. Engoli a raiva e esperei. Nesse tempo, aproveitei para fazer o reconhecimento do lugar, vi o que já estava pronto, tentei "reproduzir" e traduzir os kanjis e cada vez que ia entendendo o que estava escrito, ficava muito feliz.

Seja amigável e humilde, lembre-se de que voce é novato e não tem obrigação de saber tudo no primeiro dia. Peça ajuda para um veterano e se não for possivel, espere. Melhor ficar parado do que cometer um erro que poderá ser irremediável. Aproveite para limpar o seu espaço, reler anotações, observar.
EU > limpei a seção inteira, organizei os papéis, separei as caixas, joguei o lixo. Eu simplesmente não consigo trabalhar no meio de bagunça. Minha mãe falava pra fazer direito, porque preguiçoso faz o trabalho duas vezes.

Eu tive dois chefes - que me ensinaram lições que levarei pra vida toda - que disseram:
- se voce estiver limpando, faça a MELHOR limpeza da sua vida!
- quando voce estiver fazendo uma peça, imagine que voce é o cliente que vai comprar.
- quando voce estiver fazendo uma peça, imagine que voce é o dono da fabrica e essa peça é a garantia do seu sustento.
- quando voce estiver fazendo uma peça, imagine a satisfação do cliente ao comprar essa peça, feita por VOCE!
Eu tenho mais uma dica:
O dinheiro que  esta recebendo é o reconhecimento pelo seu trabalho. Faça bem e continuará recebendo. Lembre-se que tudo o que  puder comprar com esse dinheiro, vem do seu trabalho. Deve ser uma troca e o mais importante: procure o melhor para VOCE, não se sinta obrigado a ficar num emprego onde  não se sinta bem, pois o maior prejudicado sera voce mesmo. Da mesma forma que existe um parceiro ideal, a tampa pra sua panela, um chinelo pra calçar seu pé cansado, existe o emprego certo. Se demorar pra encontrar ou pensar que é impossivel achar, torne essa empresa o lugar ideal, repense seu modo de agir e seja flexivel.


 Eu estava fazendo hora extra e indo trabalhar no sabado, na minha antiga seção. Lá, posso até trabalhar de olhos fechados que as mãos  fazem tudo sozinhas.
Hoje, meu "novo" chefe pede para que eu faça as horas extras na NOSSA seção. Ainda tenho muito o que aprender, mas o mais importante consegui: a confiança dele.

Boa sorte a todos!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Trabalho no Japão 2/3 # Japão - o país hantai

Você já leu um mangá (revista em quadrinhos japones)? Não estranhou que o final é o inicio e o inicio começa no final?
Nas ruas, pensou que todo mundo estava na contramão quando na verdade, você é que estava? Ligou o limpador de parabrisa pensando que era o pisca pra virar?
Já conversou com um japones? Reparou que ele fala de trás pra frente, escreve e lê da direita pra esquerda, na vertical?
Ao visitar um amigo, teve o nariz amassado quando ele abriu a porta?
Comeu um doce que era salgado ou já colocou açucar num prato salgado?
Faz contagem fechando os dedos da mão?
Pede desculpas ao invés de agradecer um presente recebido?

Se você respondeu não para todas as perguntas e achou tudo um absurdo, seja bem vindo ao Japão - o país hantai (contrario).

Quanto mais vivo aqui, mais tenho medo das coisas que vou descobrindo. Todos os dias parecem absolutamente iguais e se não fosse pelo calendário, pensaria que só existisse segunda feira por aqui. E domingo pode ser qualquer dia, pois muitas pessoas trabalham em sistema de revezamento e o dia de folga pode cair em qualquer dia da semana e se tiver sorte, num domingo.
Mas o que mais me impressiona é a quantidade de regras.
É incrivel como os japoneses criam regras e normas. Pra tudo que você imaginar, existe uma logica, uma regra, uma forma adequada e inadequada de agir e pensar.
Se mostrar uma caneta azul e no papel estiver escrito que é vermelha, ele vai fechar os olhos, pensar e pensar até entender porque a caneta é azul e vai te encher de perguntas "voce pegou do lugar certo?" "voce verificou antes de pegar?" "voce pegou a caneta azul pensando que era vermelha?" "por que é azul, se está escrito vermelha?"
Eu tenho muita paciencia nessa hora, fico esperando ele entender o que aconteceu e respondo a todas as perguntas, já sabendo exatamente o que aconteceu. Alguém colocou por engano uma caneta azul na caixa de canetas vermelhas, simples. Mas para um japones, a quebra de uma regra, desequilibra tudo.
Imagine um formigueiro com duas filas de formigas, cada uma com sua função. Uma fila que vai para o formigueiro levando comida e outra fila que sai, indo buscar mais comida. Jogue uma pedrinha e tudo vira um caos. Ninguem sabe mais quem ta indo e quem ta voltando. Quem estava com a folha, pegou a semente; quem já tinha ido, não sabia se ia de novo ou voltava.
Voltando às canetas, resolvido o problema: a caneta azul voltou para a caixa das azuis e uma nova caneta vermelha foi trazida para completar o lote.

Claro que o caso das canetas foi só um exemplo, eu não comentaria aqui, os probleminhas que aparecem na minha fabrica, seria antiético e nada profissional. O que acontece lá, se resolve lá e é uma regra  não imposta, mas de bom senso.

Para facilitar a vida de quem vai trabalhar pela primeira vez em uma empresa japonesa - vale para qualquer empresa, seja no Japão ou não, eis algumas regrinhas.

5S

SEIRI (arrumação)
SEITON (organização)
SEISOU (limpeza)
SEIKETSU (higiene)
SHITSUKE (disciplina, hábito, cultura, educação)

vide 5S Wikipedia e Kaizen se eu postar a explicação completa, o texto vai ficar muito longo.

4M, 5M e 2E

MACHINE (maquina) = informações referentes a instalação das maquinas e ferramentas
MAN (homem) = definição do operador qualificado
METHOD (metodo) = maneiras e procedimentos de produção
MATERIAL (material) = material usado na produção

MANAGEMENT (gerenciamento) = sistema de gerenciamento da produção

ESTABLISHMENT (estabelecimento) = regulamentos e procedimentos da fabrica
ENVIRONMENT (ambiente) = condições do ambiente de trabalho

vide 4M Oficina da Net 



HOU-REN-SOU, 5W2H


Não é o horenso (espinafre japones) de comer, mas uma forma de agir quando acontece um problema.


  • HOUKOKU (relatar) = transmitir a essencia dos fatos ocorridos de forma objetiva. Deve-se analisar qual é a melhor maneira de relatar o assunto, seja de forma verbal ou escrita e, se necessario, com apoio de outras fontes de informação, como fotos, desenhos, figuras, mimica (hehe, no caso de não falar o idioma)
  • RENRAKU (comunicar, informar) = informar de maneira objetiva, utilizando a tecnica de administração conhecida como 5W2H, vide aqui.
  1. When? Itsu Quando?
  2. Where? Dokode Onde?
  3. Who? Darega Quem?
  4. What? Nani o O que?
  5. Why? Nande Por que?
  1. How? Dono yooni Como?
  2. How much? Ikutsu Quantos?
  • SOUDAN (consultar ou aconselhar-se sobre as medidas a serem tomadas) = antes de adotar qualquer medida importante, deve-se perguntar ao responsavel quais as medidas e procedimentos que deverão ser tomadas. Pode apresentar sugestões para ajudar o responsavel, desde que, apresente dados para transmitir com clareza as suas idéias.

Essas regras foram passadas por escrito para todos os funcionarios após varios eventos de erros.

É dificil viver em meio a tanta disciplina, mas fico pensando...
O Japão é um país minusculo, com tantos problemas climaticos e territoriais, se não houver um minimo de controle e organização, tudo seria mais complicado.
 Uma das regras que me incomoda bastante é a regra do decassegui, só descendente ou conjuge podem morar e trabalhar aqui por longo periodo. Eu entendo o porque dessa "discriminação", mas não aceito... 


Em Roma, haja como os romanos.
No Japão, haja como os japoneses. 












sábado, 4 de junho de 2011

Trabalho no Japão 1/3 # Shigoto Yooooshi

O terremoto do dia 11 de março afetou todo o país e consequentemente, a estabilidade financeira da minha casa. Recem chegada do Brasil, com a esperança de finalmente poder juntar dinheiro suficiente pra voltar  ao Brasil definitivamente, comecei a trabalhar numa fabrica de auto peças. Trabalhei 10 dias e depois, não só o sonho acabou, como o dinheiro tambem. Entrei em desespero, porque vi que a nossa tão esperada viagem de volta ao nosso querido Brasil ia ficando para trás. 
Medo do terremoto, medo de ficar sem comida, sem água, sem energia, sem esperanças...
Montei kit de emergencia e deixei na porta. Dormia com DUAS lanternas, pro caso de uma falhar. Dormia segurando o celular e os óculos (sem eles, sou completamente inutil). Deixava do lado do futon, uma calça, uma blusa e um par de meias. O Beto e o Lucas estavam mais tranquilos e ficavam bravos comigo, achavam que eu estava exagerando.
"Pra não sentir tanto medo, me deixa prevenir. Me sinto segura arrumando diariamente as nossas coisas, ou voces preferem me ver chorando e pedindo pra voltar pro Brasil?", depois que falei isso, eles pararam de se incomodar.
Ficar em casa é muito bom; poder acordar tarde, ver tv o dia todo, deixar a casa sempre arrumada e perfumada, roupa lavada, almoçar com o Lucas, jantar com a familia. Seria perfeito se não fosse um pequeno detalhe: falta de dinheiro.
Fiz alguns serviços temporários que me enriqueceram muito, no sentido de aprendizado. Conheci um bentoya e uma fabrica de doces.
Bentoya..... nem o Osama Bin Laden merece um castigo desse (brincadeira! mas pra quem não esta acostumado com o ritmo de um bentoya, é muito sacrificante e estressante ).
Fabrica de doces... amei trabalhar lá, aprendi a fazer rosquinhas, torradas e confeitar bolo. 
Mas eu precisava de um emprego fixo, que pudesse pagar nossas contas pelo menos. Antigamente, quando ia fazer compras, nem olhava a carteira, pois sabia que tinha o suficiente. Hoje, contamos as moedinhas e nunca mais esquecemos de levar nossa Eco Bag pro supermercado e assim evitar de pagar pelas sacolas do supermercado.
Bom... fui pedir emprego em uma fabrica onde já tinha trabalhado em 2008/2009. Fui na maior cara-de-pau, sem ligar, levando um contrato velho. 

 Minhas dicas para quem vai pedir emprego no Japão.

Correto: Se não puder ir pessoalmente solicitar uma entrevista, ligue para agendar e anotar os documentos que irá levar no dia.
Errado: Apareci sem ligar e no desespero de conseguir uma vaga, aceitei agendar para o dia seguinte a entrevista. Tive que sair correndo pra providenciar os documentos, tirar foto e ir até o Departamento de Imigração pedir um papel que eu nem sabia que existia. Cheguei em cima da hora, mas com tudo providenciado. Meu marido saiu do Yakin (trabalho noturno), me levou até Nagoya, ao Apita tirar foto, comprar curriculo, comer um american dog e me deixou na porta da fabrica. Ficou me esperando pra me levar de volta pra casa e finalmente dar uma cochilada pra ir trabalhar a noite. Se voce não tiver um super marido, agende para um dia que voce tenha certeza de ter tempo de providenciar tudo. 

Correto: Vá com uma roupa discreta, não precisa ser terninho-engomadinho, com uma bolsa pequena que caiba os documentos, celular, carteira, etc.
Errado: Eu tenho uma bolsa linda, verde. Grande. Coloquei minha blusa, sombrinha, celular, carteira, etc, etc.
Quando a moça perguntou o numero do meu celular (não sei de cor) não consegui achar, tive que tirar blusa, sombrinha, e tudo o mais que estava em cima do celular. O danado estava escondido no fundo da bolsa!

Correto: Sente-se ereta, com as mãos sobre o colo e responda calmamente as perguntas. Antes de ir para a entrevista, procure saber sobre a empresa, se for por indicação, converse com seus amigos, pergunte sobre tudo! Horario de trabalho, quem é o chefe, o chefe do chefe, salário, dia de pagamento, rotina de trabalho, particularidades. E o mais importante de tudo: estude o idioma e seja sincero ao dizer nihongo... amari hanasemasen.
Errado: Eu entendo (se falar devagar), falo (se tiver paciencia para esperar eu formular uma frase), leio katakana, hiragana, alguns kanjis (ainda não consigo ler um Yomiuri Shimbun, mas chego lá). Para a entrevista, me deram um papel com algumas perguntas. Nihongo chotto...  A moça, me desdenhando, falou yomemasen? kakemasen? mensetsu dekinai.
Será que ela não me conhece? Não sabe que trabalhei quase dois anos lá? Cadê o Umeda san pra me salvar?
Ah, mas eu vou responder essas perguntas, ela não vai me vencer assim.
Respondi TUDO! do meu jeito, né? O que não entendi, falei que tinha lido, mas não tinha entendido o signifcado. Japoneses tem um codigo secreto pra perguntar certas coisas. Eles evitam fazer perguntas diretas e dão respostas evasivas. Eu li tudo, mas enrosquei nesse codigo.

Correto: Responda sinceramente todas as perguntas, mas procure não ser tão objetivo.
Errado: Nas perguntas Que tipo de serviço voce mais gosta? e Que tipo de serviço não gosta?, respondi serviço rapido e detalhado para gostar e serviço lento e pesado para não gosto. Eu queria muito voltar para a minha antiga seção e descrevi o tipo de serviço que faz lá.
Não voltei para a seção, mas para a subseção dela. É um lugar tranquilo, mas minucioso ao extremo. O resultado da minha "leitura" de kanji? Vou ter de ler e escrever em kanji o dia todo e a unica pessoa que poderia me ajudar, pediu demissão e ontem foi o ultimo dia dela, agora vou ter que aprender na marra, pois vou trabalhar sozinha e terei que carregar as caixas pesadas sozinha.

Muitos blogs e livros dão dicas sobre comportamento, roupas, ensinam o que falar e o que não falar. Ensinam como se tornar uma pessoa "contratável".  
Minha dica é: seja voce mesmo, seja natural, porque se te contratarem e voce se mostrar diferente do que na epoca da entrevista, voce não durará uma semana. Seja educado, desligue o celular, mostre interesse e pergunte se não entender alguma coisa.

Meu primeiro dia, foi muito bom! No final da explicação sobre o funcionamento da empresa,  um amigo (japones) que é chefe do departamento de qualidade, se levantou da mesa e veio me cumprimentar falando kita, kitayo!  O encarregado da seleção de candidatos pediu para que eu acompanhasse os novatos e mostrasse onde guarda os sapatos - perai! então ele sabia quem eu era e me deixou sofrendo com aqueles kanjis.
Nos corredores, no refeitorio, no vestiario, onde encontrava gente, ouvia hisashi-buri. Foi bom reencontrar o pessoal, mas o que me marcou mesmo, foi ouvir dos chefes alem de ohisashi-buri, onegai shimasu. Quando fui pedir emprego, todos ficaram sabendo, do kakaricho ao shain. No dia da entrevista, meu antigo chefe falou para as meninas que eu estava no escritorio.
No segundo e terceiro dia, continuei encontrando gente e era muito gratificante ver sorrisos e felicitações pelo nascimento da Laís. Todos já estavam sabendo que Amanda tinha se casado e que eu ganhara uma neta. Todos queriam saber se ela tambem ia voltar a trabalhar lá.

Minha segunda dica é: trabalhe com vontade e com responsabilidade. Seja flexivel no horario, aprenda, pergunte, ajude, sorria, não faça fofoca nem panelinha. Mantenha limpo e organizado seu local de trabalho. Se estiver aguardando serviço, pergunte o que pode fazer enquanto isso ou pegue uma vassoura e uma pá e limpe, limpe, limpe.

Hoje - sabado - passei o dia estudando kanji. Meu sensei me deu dicionarios, livros e mais livros, que estavam encostados desde que cheguei do Brasil em fevereiro. Ele vai ficar orgulhoso de mim ao saber que ainda consigo ler e traduzir pequenos textos.

Resumindo: Se voce não tiver uma fabrica para voltar, onde todos o conhecem e gostam do seu serviço, procure construir sua historia fazendo o melhor que puder, se esforçando para ter sempre um lugar onde possa voltar.

Apesar da minha entrevista ter sido um desastre, consegui um emprego e um novo desafio.