quarta-feira, 13 de julho de 2011

Transporte no Japão # minha toalhinha é da Minie

Adoro viajar de trem! Quando dá pra olhar pela janela é melhor ainda.
Depois de algumas viagens espremida na porta, resolvi escolher outro lugar pra ficar. Sou bem baixinha e fico na altura do cotovelo da maioria dos homens, mas o pior mesmo são os estudantes com suas mochilas batendo na minha cabeça. Ir pra escola já é uma tortura, carregar aquelas mochilas feitas de chumbo, é castigo demais!
Antes, entrava e ficava na porta da frente, o problema é que as estações seguintes abrem desse lado e o povo vai entrando. Eles entram de costas e vão empurrando delicadamente, andando para trás. Agora, eu entro e fico perto da porta por onde entrei, assim as pessoas que entram pela outra porta não chegam até mim. Não é o ideal, mas consigo viajar sem virar limão espremido.
Viajar diariamente de trem, torna as pessoas suas companheiras de jornada. Nessas viagens, ganhei tios e tias, irmãos e primos.
Na estação de Kariya, minha "tia" chega cedo para sentar no primeiro banco. Eu procuro qualquer  lugar vago, ela faz questão de se sentar no mesmo banco todos os dias. Quase sempre sentamos proximas. Nunca conversei com ela, mas me sinto tranquila quando a vejo, paradinha na plataforma.
Meu "primo" tem um amigo invisivel e acho que eles sempre brigam entre si, pois quando fica bravo, fica dando tapas no rosto. Repete as palavras incansavelmente, como se as pronunciasse pela primeira vez. Ele entra no trem e fica desesperado pra sentar. Olha pra minha "tia" e fala ohayou, quando ela não responde, fica falando até ela se virar e responder. Ele deve ter alguma deficiencia mental. Estou preocupada com ele, faz dois dias que não o vejo. A "tia" também, porque ela fica olhando pela janela, procurando por ele.
Meu "tio" sabe que desço na estação seguinte a que ele entrou, então fica parado em frente ao meu banco. Ele se parece com o John do filme SAW. Tenho medo dele. Antes do trem parar e as portas abrirem, tenho certeza que ele fica me procurando. Será paranóia? Mas que ele fica parado esperando, não tenho duvidas. Quando o trem para, levanto rapidinho, falo doozo e saio correndo.
Minhas "irmãs" são terriveis. Falam alto, fazem escandalo, se esparramam pelos bancos. Tenho vontade de pegar pela orelha e falar pra ficarem quietinhas.
Trem no Japão é tudo, menos trem. Janela vira espelho, banco vira cama, parece uma central telefonica ou uma empresa de telemarketing, pois todos estão com um celular nas mãos. Trem vira biblioteca ou discoteca (nossa, essa palavra ainda existe?) a maioria le livros ou ouve iPod.
Eu vejo casas. Em uma dessas viagens, ganhei uma . Ao passar por ela, fico imaginando como deve ser por dentro, quem são os moradores, se são felizes. Todos os dias fico me imaginando cuidando do jardim, dando festas, brincando com os cachorros, sentada com o Beto na varanda - e que varanda!
Ainda em Kariya, na plataforma, tenho vontade de puxar a "tia" pra trás, porque ela fica bem na porta esperando pra entrar e o povo sai do trem igual pipoca pulando pra fora da panela. Toda a cordialidade fica dentro do vagão. É gente se acotovelando e empurrando, fico horrorizada vendo essa cena e agradeço por estar do lado de fora. Esses dias, um estudante foi empurrado com tanta força que caiu no chão, não sei se o peso da mochila contribuiu pro tombo. Engraçado que só na saída do vagão é que a animosidade toma conta dos pacatos japoneses, pois na escada todos já se acalmaram e sobem pacientemente os degraus. Só se ouve o barulho dos sapatos.
Outro dia comparei o trem com uma lata de caviar. Corrijo para caixa de fosforos.
Como sou baixinha, vejo as pessoas de baixo e hoje fiquei rindo sozinha comparando os japoneses com palitos de fosforo. Todos magros e altos, cabelo preto, enfileirados. Comparação hilaria, não é mesmo?
Eu ja posso me comparar a uma japonesa nativa, nesse calor, não dispenso a sombrinha e a toalhinha pra enxugar o suor. O trajeto casa-estação-fabrica é curto, mas o sol está implacavel. Sorte que dentro dos trens, o ar condicionado não está em sistema de racionamento.
Se isso acontecer, o trem também poderá se transformar em SAUNA.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Transporte no Japão # Trilhos que matam

Pontualidade no Japão é levada a serio, raramente um trem se atrasa, no maximo 3 a 4 minutos.
Hoje, ficamos parados 50 minutos na estação. Será que o trem quebrou? Será que aconteceu algum acidente? O condutor avisava que as linhas estavam interrompidas e que não era possivel seguir e dava alternativas de mudança de rota. Liguei para o Beto e ele foi me buscar de carro. Foi bom porque pudemos nos encontrar.
Na hora do almoço, comentando sobre o atraso, uma amiga disse que na estação onde ela pega o trem, haviam varios policiais. Alguém havia se atirado nos trilhos, infelizmente aqui isso é comum.
Nem quero falar muito sobre isso. Não sei qual é o meu sentimento. Tristeza. Indignação. Raiva. Qualquer coisa, menos indiferença.
Hoje o dia ficou com sabor amargo...

domingo, 3 de julho de 2011

Querido diário

Fazia tempo que não publicava no meu diário. Como estava na TPM e nessa epoca fico meio ET, fiquei com vontade de escrever pra ele e falar sobre as diferenças que sinto, vivendo no Japão.
Eu adoro o Japão, mas não gostaria de ter nascido japonesa. Não é discriminação nem racismo, muito menos japanofobia que eu nem sabia que existia!
Desde criança fui extrovertida, faladeira, de lingua solta. Tinha mil amigos, mil namorados e milhões de vontades e sonhos. Não tinha medo de nada e encarava as dificuldades com alegria e otimismo.
Hoje, não sei se é a maturidade, mas estou bem mais tranquila.
Brasileiro nasceu para viver na alegria, apesar dos problemas. Churrasco para os amigos todo fim de semana e se não tiver carne, faz sem carne, só com pão e maionese. Pode faltar dinheiro, mas não falta sorriso e carnaval.
beijo, só em campanha publicitaria
Brasileiro abraça, beija, pega na mão, pega no pé e onde mais voce quiser. Não tem vergonha de beijar nos bancos da praça nem de andar de mãos dadas, não tem vergonha de fazer carinho na amada.

Brasileiro tem casa de tijolo, de madeira, de barro e tem quintal com cachorro solto. Cachorro brasileiro pode latir a vontade, anda pelado e não usa chapéu nem sapatinho.
Brasileiro é verde, amarelo, roxo, azul, rosa, vermelho, gosta de cinza e preto, mas não é obrigatorio.
As casas do Brasil tem muro rachado, goteira, porta de ferro com janela de madeira e portão enferrujado que só abre quando quer. A minha casa tem um quintal enorme, com um pé de limão no fundo, que além de dar limão, é o esconderijo da Sofia, que se esconde embaixo dos espinhos pra não tomar banho.
Eu adoro o Japão, com suas casas Lego, maquinas automaticas de bebida, cigarro, pão, lamen, sorvete, fotografia e brinquedinho espalhadas pelos 4 cantos.
Adoro os tijolos que não são tijolos, o piso de madeira que de madeira não tem nada, mas engana até o super homem com sua visão de raio-X. No Japão, voce pode ter grama dentro de casa - artificial. Vem em blocos e voce vai montando como um quebra-cabeça.
No Brasil, todo mundo quer entrar ao mesmo tempo nos trens e onibus, disputando o primeiro lugar na fila, aliás, no Brasil tem fila pra tudo: banco, INSS, supermercado, metro, banheiro publico.
Aqui, também tem fila, mas parece que estamos na escola, todo mundo em fila, alinhado e esperando pacientemente a sua vez. Ninguem é fura-fila, só eu quando estou com muita pressa, mas eu sou brasileira, eu posso (que coisa feia, Claudia!).
No Brasil, os homens cedem seus lugares às mulheres, são cavalheiros. Abrem a porta do carro, do restaurante para suas namoradas. Aqui, os homens entram primeiro, as mulheres seguem atrás.
Ouvi dizer que os japoneses deixam suas mulheres atrás para as protegerem do perigo que vem pela frente.
Meu marido prefere ficar atrás, pois assim me protege do que vem por trás e fica de olho no quem vem à frente. Abre a porta dos restaurantes e a porta de casa pra mim, e quando passo por ele, me segue segurando a cintura. Na calçada, nunca me deixa do lado da rua, diz que se um carro perder a direção e subir a calçada, eu fico protegida por ele. Meu marido é o super-homem, o meu anjo-da-guarda e é BRASILEIRISSIMO.
Acredito que os japoneses amam suas mulheres, mas de uma forma tão contida, que se eu fosse japonesa, eu tratava de desvirar rapidinho.

No Brasil a melancia é redonda e a gente leva na cabeça.
Melancia japonesa é quadrada pra caber na geladeira.





Uma coisa que adoro aqui >  Todo mundo pode se vestir como quiser, pode usar tudo misturado, chinelo Havaianas com terno e gravata, homem usa chinelo da Hello Kitty e bolsa rosa, as mulheres são lady Di num dia e lady Gaga no outro.


Os adolescentes japoneses são muito carinhosos uns com os outros, mas também crueis. Como no Brasil, eles saem em grupos e são muito alegres.

Eu sou brasileira, não nego, mas queria ser um pouco japonesa, elas são tão chiques e altivas. Eu quero entrar num buraco e não sair nunca mais quando vejo uma japonesa de vestido e salto alto, com bolsa combinando; com vestido cheio de babados e laços e colar de perolas - verdadeiras; com a maquiagem impecavel, sempre com duas bolsas - uma normal e outra pra carregar obento. Eu, no meu jeans, camiseta e tenis. Um dia, resolvi colocar uma mini saia, botas de salto, casaquinho pra ir ao supermercado - de bicicleta. O Beto me olhou e perguntou: onde voce vai assim?
Troquei de roupa e fui feliz da vida, usando uma bermuda e camiseta.
Estou tentando encontrar um equilibrio, uma mistura saudavel de Brasil-Japão, afinal, nasci brasileira, mas em mim, corre sangue japones herdado dos meus avós.