domingo, 30 de setembro de 2012

Primeira semana

1o dia

Olhar para as malas arrumadas, perto da porta, deu uma sensação de impotência e certeza de que eles iriam mesmo. De nada adiantaram minhas caras e bocas e meus olhares de "fica, fica, fica".




Tudo bem, vão ser só 20 dias! Ah, me engana, que eu gosto!
Vou ter bastante tempo para as minhas coisas.
Vou ter tempo de sobra demais para não fazer nada...
Silêncio absoluto...

Vai ser só eu e a Tusha, mais eu que ela, porque ela não conversa e os seus carinhos são um pouco molhados, afinal ela é uma tartaruga, que solta raios!
Depois que o ônibus partiu, fui para Kanayama fazer umas comprinhas de artesanato.
Pensando em fazer uma shamballa, um colar, brincos...

e bordados, muitos bordados

maleta para material de bordar e porta-lingerie (se um dia resolver viajar, rsrs)

Caixas para guardar minhas bonecas e as roupas que vou costurar para elas

A Lika me deu de presente as suas bonecas



Cheguei em casa no finalzinho da tarde e nem queria jantar, mas prometi a todo mundo que iria comer, então...
Comi um chahan e tomei coca-cola. Até que o chahan de farmácia é gostoso. É só colocar os molhos, 2 minutos no microondas e misturar. 
Dormi com a luz acesa e com a corrente na porta. Testei um monte de vezes se a corrente era facil de tirar, porque acho que nunca tinha sido usada, e se desse terremoto e eu não conseguisse sair?? #paranóica








2o dia


Beto me ligou de Dubai, do celular, e disse que estava tudo bem. Falei com o Lucas também.
Fiz café e descobri porque o café que o Beto fez ontem estava com pó. Ele colocou o filtro na cafeteira sem o porta-filtro! Quando estamos de folga, ele sempre me faz café, diz que adora o cheiro do café sendo passado, mas não toma. Depois da minha mãe e da bachan, ele faz o MELHOR café do mundo! Mesmo ontem, com pó no fundo da xícara, estava perfeito.
A casa está silenciosa e bagunçada. Finalmente tirei as bonecas da sacola, que ganhei da Lika ontem.
Como fizemos estoque de carne, tive que individualizar a ração. Coisa prática e triste... Minha comida em sacos plásticos...

 Vou comer: carne moída, bife, linguiça. Carne moída, bife, linguiça. Carne moída, bife, linguiça.

E carne moída e calabresa.

Acho que tenho comida suficiente, né?


Comi 1 esfiha e tomei suco de laranja no almoço.
Comi pão com nutella à tarde.
Levei arroz com calabresinha para jantar na fábrica.
Como é bom trabalhar e ocupar a cabeça. Corpo cansado sem disposição para pensar besteira. Ainda não chorei.


3o dia

Comecei a bordar. Esse foi o primeiro ponto que minha bachan ensinou. Eu tinha uns 8 anos.
Não almocei. Nunca almoço quando faço yakin, a não ser quando o Lucas me chama e como ele não está aqui (é, eu estou fazendo chantagem emocional)...
Levei arroz com carne moída para jantar na fábrica.

4o dia

Cheguei da fábrica. Dormi.Acordei.Fui trabalhar.
Levei arroz com carne moída (quando é que essa carne moída vai acabar??)


5o dia

Mais animada para cozinhar. Menos animada para lavar a louça.
Bife para a janta. Não é a minha picanha especial, mas ficou bom.


6o dia


O bordado está rendendo, acho que domingo termino.


Cheguei em casa às 5 da manhã, falei um pouco com o Beto e fui dormir. Acordei às 10:30, lavei roupa, vi alguns episódios do Grey's Anatomy da primeira temporada. Tomei uma sopinha.
Almocei tarde, acho que era umas 3 horas da tarde. Comi isso no almoço e janta:



7o dia


Domingo. O que fazer no meu primeiro fim de semana em casa sozinha?
Falei com o pessoal pela webcam. Debati política (odeeeeio) num grupo do facebook. Comecei a 2a temporada do Grey's Anatomy. E almocei isso:

É, é a feijoada.
Eu sou viciadíssima em café preto e me falavam "se você continuar tomando café desse jeito, vai ficar preta".
Depois de 2 dias comendo feijoada e tomando coca-cola, vou ficar preta... e GORDA.
Pra completar a semana, taifu! 

Fim da primeira semana.

Fiquei feliz, porque recebi ligações e mensagens de pessoas queridas que se preocupam comigo. Eu estou bem. Mais tranquila do que esperava, porque converso todos os dias, pelo MSN, com o Beto, Lucas, Amanda e Laís. 
Tomar coca-cola direto da garrafa não tem graça se não pode tomar escondido. Usando copo.
A próxima semana é que me preocupa...















quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Tomar coca-cola direto da garrafa

Valéria vai casar.

Valéria é minha cunhada e a última das irmãs do Beto solteira. E resolveu se casar. E quer o irmão no casamento. E está no Brasil.
Isso significa que o Beto vai ter que ir para o Brasil; é uma coisa boa porque ele está precisando de férias. Quando Aline - minha outra cunhada - se casou, não pudemos comparecer e prometemos ir ao casamento da Valéria. Promessas são tão complicadas e difíceis de cumprir...


Eu não vou poder ir, meu contrato foi renovado (ufa! que alívio!) e não posso pedir férias... Mas o Beto, depois de quase 5 anos trabalhando sem NUNCA ter faltado, decidiu que era hora de tirar uns dias de descanso e assim poderia conduzir a irmã até o altar, conhecer a Laís, rever a família e os amigos, resolver algumas coisas em casa (será que vão ser férias?).
Foram meses de planejamento, semanas de ansiedade e dias de tensão. Quanto mais perto o dia da viagem se aproximava, mais ele ficava desesperado, afinal eu iria ficar sozinha e quem me conhece...
O Lucas vai junto.
Decidi fazer um diário contando como vai ser esses dias sem os dois aqui em casa.

Uma semana antes

Dia 14 de setembro foi aniversário dele e fizemos um churrasco no domingo pra comemorar o aniversário e a despedida deles. Tive uma crise histérica e por pouco não fui parar no hospício. Era muita coisa pra administrar.
Pessoas estavam sendo demitidas na minha fábrica; preparativos do churrasco; compras para a viagem; comprar terno/gravata/sapato; ansiedade por ficar sozinha; Beto e Lucas pareciam apáticos e sem vontade de colaborar; ia passar taifu no dia do churrasco.
Mas deu tudo certo, fez um dia lindo - com um pouco de vento - nossos amigos compareceram, não faltou comida, não faltou bebida, não faltou alegria e não faltou micos, né Alexsandra?  hahahahahaha
Até falei umas palavrinhas na hora do parabéns. Lucas tocou no violão e a Laís falou "Feízsário" e cantou parabéns num vídeo que Amanda gravou.

Dois dias antes

Correria.
Fomos visitar a Angel e voltamos decepcionados e revoltados. Essa história contei aqui.
O Lucas foi encontrar os amigos no parque e nós fomos ao AEON e o Beto acabou comprando uma calça e um tênis. Falou que eu estava levando ele para o mau caminho, que estava gostando de gastar dinheiro com roupas. Saí do shopping desmaiando de fome e cansaço... a semana toda não almocei nem jantei, simplesmente não tinha fome! Resolvemos comprar comida no Sukiya e comer em casa.

Um dia antes

Fomos buscar saco de lixo na prefeitura de manhã e fizemos compras no Koko. Estoquei a geladeira de carne. Passamos o resto do dia vendo seriados online. O Lucas foi almoçar com os amigos, depois foi para o estúdio e à noite fomos levar a Lika até Chiryu, para ela pegar o trem de volta para Toyohashi. Comi 4 esfihas - duas no almoço e duas na janta. Acho que estou voltando ao normal e a fome veio em dobro.

Dia da viagem

Fomos ao banco atualizar as cadernetas e fazer as últimas compras. Beto comprou alguns presentinhos para os amigos e um boné. Pelo jeito virou um consumista...
Compramos garrafas e garrafas de suco e o Beto ficava me beijando e suspirando e pedia pra eu não olhar com aquele olhar de "fica, fica, fica".
A Lika e os pais chegaram exatamente ao meio dia e pegamos a estrada pra Nagoya.
13:30 entramos no Denny's para almoçar e 14:50 o Beto e o Edson estavam correndo atrás do agente de viagens pra pegar um selo de identificação para o embarque. Brasileiro é fogo. Não respeita o horário.
Deveríamos estar às 14:30 no ponto de ônibus para o kakunin. 15:00 o ônibus iria sair.
Nós estávamos tranquilos porque estávamos dentro do horário e no ponto. De repente foi uma correria, ningém sabia que precisava de um selo de identificação para o embarque. Pessoas correndo de um lado para o outro, malas espalhadas na calçada, pessoas ainda se despedindo e eu me irritando. O agente de viagens não tinha explicado sobre o selo e tinha sumido. Ainda bem que despachamos as malas no sábado, então só faltava o selo.
Haviam dois ônibus - um branco e um vermelho - o selo do Beto e Lucas era vermelho, então os dois pertenciam ao vermelho. Verdade?! Dãããã.  Os motoristas ficavam olhando o relógio e o povo bem sossegado... Brasileiro é fogo!
Beto me beijou e falou: - eu amo tanto você! Você vai ficar bem?
- Vou. Você vai?
- Não! ele respondeu.
Lucas me deu um abraço forte e demorado.
De dentro do ônibus, Beto ficou brincando e colou o selo na testa, na orelha, ficou fazendo graça. Lucas ficou sério e não olhou pela janela.
O ônibus foi andando e a gente seguindo. Beto ficou olhando pra trás até não nos ver mais. No último momento, Lucas ficou me olhando... e deu xauzinho...
Pronto. Foram.
A partir de hoje, posso tomar coca-cola direto da garrafa.







terça-feira, 25 de setembro de 2012

Um anjo com a asa quebrada e uma mãe com o coração partido

Antes de começar a ler, relembre aqui, a história da Sara e do Peto.


Oi, mãe!!





E pro Nick e Peto, nada??
NADA!!
Depois que a Sara e o Peto morreram, ficou um buraco enorme em mim... Mas não um buraco triste, porque eles me deram tantas alegrias e não seria justo ficar me lamentando e perdendo tempo sentindo raiva de quem jogou veneno no nosso quintal. Ficou um buraco cheio de boas lembranças. Peto chegava de mansinho, olhando para os lados, fugindo do pai - Nick. Colocava o focinho no meus joelhos e ficava esperando carinho, chegava a dormir em pé, apoiado lá.
A Sara chegava rebolando, toda manhosa e fazendo charminho. Deitava de costas e abria as
pernas, porque gostava que a gente fizesse cocegas na barriga. Ela comia a ração DEITADA - como o pai - e quando a gente perguntava "tá gostoso, Sara?" ela se chacoalhava toda, sem tirar a cabeça do pratinho. A mãe - Sofia - só balançava o rabo.
Eu sinto tanta saudade de todos eles...
Sinto saudade de ver o Beto com o saco de pão na mão, falando para os quatro sentarem. E cada um ia pegando o seu pão e indo comer no seu canto. A Sofia ficava desfilando com o pão na boca e quando todos já tinham comido, ela ia enterrar o dela. Peto ia atrás, desenterrava e comia. Danado!
Sempre peço pro Beto um cachorrinho, mas ele não quer ter aqui no Japão, por vários motivos.

essa é a carinha que conquistou o meu coração


FACEBOOK é um canal aberto para nossas emoções e um dia, vi a foto da Angel, uma cachorrinha que tinha sofrido maus tratos e precisava de uma família que a acolhesse.
Quando li a sua história, tive certeza de que poderíamos ajuda-la. Ela já tem 12 anos e estava com a perna fraturada, precisaria de cirurgia, fisioterapia, remédios e principalmente amor.
Depois de algumas mensagens trocadas com a ONG - onde ela estava - fomos visitá-la no sábado. O Beto e o Lucas iriam viajar na segunda e eu queria que eles a conhecessem. Eu os tinha convencido a levá-la pra casa e estávamos animados e esperançosos.
Foram duas horas de viagem com muita expectativa e planos.
Quando a encontramos, levamos um susto! Como ela era pequena e frágil!  E à medida em que fomos conversando com a responsável pela ONG, foi crescendo uma revolta tão grande... Ela já tinha optado por outra família.
Ótimo que a Angel iria morar com uma família "melhor", com recursos financeiros e muito tempo disponível para cuidar dela. Ótimo que muitas pessoas foram vê-la e que queriam cuidar dela. Ótimo que a sua história comoveu e arrecadou muitas doações para a ONG.
O que me chateou e falei isso para ela, é que se soubessemos que outra família tinha sido escolhida, nós deveríamos ter sido avisados e não teríamos ido visitá-la. Não foi justo nem responsável da parte dela. Ela poderia ter dito que a Angel já tinha sido adotada, mas que poderíamos ir vê-la e que tinha outros bichinhos à disposição, que poderíamos visitar o canil, etc. Quando troquei mensagens com ela, não sei se foi impressão, mas ela, em todas as respostas, foi "curta e impessoal". Deixou que criássemos expectaticas... Quando perguntei se tinha sido com ela que troquei mensagens ela me respondeu "ah, eu falo com 6 pessoas ao mesmo tempo. Não sei se foi com você que falei." E ficou falando de um cachorro que tinha acabado de ser entregue, falava das qualidades do bichinho...
Meu Deus do céu! Que insensibilidade...
Quando chegamos, encontramos um casal de saída que estava visivelmente decepcionado. Também tinham recebido a notícia, de surpresa.
Concordo que a ONG queira encontrar famílias para seus abrigados, mas tenha um pouco mais de respeito para com as pessoas. Não podem passar por cima dos sentimentos das pessoas desse jeito.
Vi ali um comércio - sem lucros - de animais. Doação não é isso. Simplesmente empurrar um animal para alguém. Deve haver uma afinidade, uma química, temos que gostar do bichinho e principalmente, ele tem que gostar de nós.
Quando estávamos indo embora, a Angel se arrastou e começou a chorar. Perguntei "você quer ir embora comigo?", ela colocou seu focinho na minha mão e ficou fungando, rsrs. Não sei se ela fez isso com todos que foram vê-la, mas como o Beto disse: "pra MIM, ela só fez isso pra nós".
Angel, depois da cirurgia
Angel...
Eu espero, de todo coração, que você se recupere logo e tenha uma velhice confortável e feliz e eu NUNCA, NUNCA vou me esquecer do seu olharzinho de jabuticaba.